Raio-x do GP da Emilia Romagna: os acertos da McLaren e o recado para Verstappen

Red Bull Content Pool

Max Verstappen deve ter olhado para o céu preocupado quando, minutos antes de ir para o grid, começou a chover forte na parte detrás do circuito de Imola. Para se ter uma ideia, eu, do grid, me comunicava diretamente com o produtor-executivo Jayme Brito, que estava no TV compound, ao lado das Rivazza, as duas últimas curvas da pista:

Como não está chovendo aí? Aqui tá caindo o mundo!

Aqui só está garoando, dizia eu, a menos de 500m de distância.

Tirei essa foto pra mostrar pra vocês como ficou nosso cantinho no gris depois que eles tiraram a placa (dá pra ver ela lá atrás) que identifica cada TV

Era uma garoa consistente, então em 20 minutos o grid estava molhado, e me surpreendi vendo alguns carros chegando com os pneus azuis, de chuva. Não parecia ser para tanto e, se fosse por uma questão de temperatura, fazia frio, perto dos 10 graus, e não havia motivos para as equipes se preocuparem com o superaquecimento que geralmente acaba com os intermediários.

A questão era quanta chuva estava por vir, e os locais da AlphaTauri (cuja fábrica fica a 15 minutos da pista) decidiram, junto com Pierre Gasly, largar com os pneus de chuva. A água prevista por eles não caiu, e o quinto colocado no grid foi o primeiro que, aos poucos, foi saindo da briga.

Voltando a Verstappen, a preocupação que ele mesmo revelou após a prova tinha fundamento: a Red Bull não largou bem em piso molhado em 2020 e seria a hora de ver se o trabalho feito pela Honda para regular a transferência de potência tinha dado resultado. Ele foi de segunda marcha, assim como Hamilton, e conseguiu uma largada sensacional, colocando-se em primeiro e com o lado de dentro da primeira perna da Tamburello. Com pista livre, na chuva, o foco seria manter os pneus na temperatura ideal e entender qual o momento de colocar slicks.

É lógico que essa segunda tarefa não fica totalmente nas mãos do líder, então logo Max pediu para o engenheiro “ficar de olho nos setores de quem parar”, o que seria o equivalente ao engenheiro pedir para o piloto acelerar. É claro que alguém com mais a perder seria o primeiro a arriscar, como costuma acontecer neste tipo de cenário.

Mas foi o pobre Sebastian Vettel, que já estava com a corrida toda complicada, tendo largado do pitlane e com um stop and go de 10s para cumprir, tudo devido a um problema nos freios ainda no grid. Isso significou que ele voltou à pista recebendo bandeiras azuis, o pior cenário possível para quem arriscou colocar pneu de pista seca sem muito mais do que um trilho seco (já que ele tinha que dar passagem e molhar seus pneus). Vettel, então, acabou não sendo um parâmetro muito válido, e os demais esperaram algumas voltas para seguirem o alemão.

Ali Hamilton começou a apertar, diminuindo a diferença para Verstappen, de 6s na volta 22 para 2s na 26, o que fez o holandês parar nos boxes para evitar um undercut. Ele sabia que a corrida estaria em suas mãos, especificamente da outlap dele com pneus de pista seca numa pista que ainda estava secando. E fez uma volta muito forte: tirando a parada, que já foi 1s3 mais rápida que a de Hamilton, ele foi 0s7 mais veloz que o inglês nas mesmas circunstâncias.

Não por acaso, Hamilton tinha pressa, como ele mesmo disse. Arriscou negociando com retardatários e errou. Sabe-se lá como, conseguiu voltar para a pista de ré, mas teria que trocar o bico e perderia uma volta.

Era o fim das chances do heptacampeão até que os outros dois pilotos Mercedes do grid se engancharam em uma improvável disputa de uma Williams e uma Mercedes pelo nono lugar. Bottas estava ali porque não conseguiu preparar bem seus pneus na classificação, e em momento algum conseguiu aquecê-los como Hamilton fazia lá na frente, enquanto a corrida de 2020 em Imola já mostrava que a mecânica da Williams se dá bem com a necessidade de atacar as zebras do circuito italiano. O time inglês largou sabendo que, mesmo em condições normais, tinha chances de pontos.

Já do lado da Mercedes, sem o superaquecimento provocado pelo tipo de traçado + calor do Bahrein, era possível acertar o carro de um jeito mais equilibrado, porque os pneus traseiros aguentariam bem. E o estilo mais agressivo de Hamilton ajuda os dianteiros a entrar em uma janela de que, quanto mais frio ficava, mais longe Bottas ficava.

Até o acidente na volta 30, ou seja, com pouco menos de metade da prova completada, alguns pilotos já vinham em recuperações interessantes: Lando Norris compensou o erro na classificação e a primeira volta ruim, e já tinha ganhado seis posições – inclusive a do companheiro Ricciardo, que abriu caminho a pedido da equipe e simplesmente não conseguiu acompanhar o inglês. E Carlos Sainz, que no início da prova parecia não conseguir manter o carro na pista, de uma hora para a outra colocou a Ferrari nos trilhos e veio junto com Norris. Ele e Leclerc, que vinha bem, brigando com Perez pelo último lugar no pódio antes de toda a confusão, estavam com mais asa que os adversários, tendo apostado que choveria.

Com a bandeira vermelha chegando bem quando as nuvens se afastavam do circuito de Imola e o sol começava a aparecer timidamente, deu para todo mundo se preparar praticamente para uma segunda prova, já com a pista seca.

A primeira dúvida era qual pneu colocar: o macio seria a melhor opção para a relagarda e pela questão da temperatura baixa, mas o médio era o mais consistente para quem tinha que atacar mais. A McLaren escolheu os vermelhos para seus dois pilotos, com resultados diferentes: Norris aproveitou para ir para cima de Leclerc e Ricciardo não conseguiu sair do lugar. Perez jogou seus pneus macios no lixo ao errar, sair da pista, e cair lá para trás. E Tsunoda acabou forçando demais, o que tem sido sua marca até aqui.

Vindo lá de trás, de oitavo após a relargada (na qual recuperou a volta que tinha perdido devido à bandeira vermelha), Hamilton foi passando um a um, aproveitando que poderia gastar ao máximo seu pneu médio, e já estava em segundo a quatro voltas do fim. Depois que superou Lando Norris, ainda fez uma volta em 1min16 só para mostrar para Verstappen o que podia fazer – e para ficar com a volta mais rápida, claro, que o mantém na liderança do mundial – e, curiosamente, mesmo tendo podido cuidar de seus pneus por toda a parte final, Max não conseguiu responder. O quanto da condição de pista toda especial ajudou a Mercedes teremos que esperar mais algumas etapas para entender. Mas o fato (bom para nós) é que é difícil apontar quem é o melhor no momento, e isso só aumenta a possibilidade de erros como vimos no sábado com Max, e no domingo com Lewis.

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