Coluna Diversidade: Ela queria ser atriz, mas virou pioneira na F1

Uma senhora esbanjando energia e que claramente sabia muito bem o que estava fazendo trabalhando ao lado de Lance Stroll quando ele estreou na Fórmula 1 me chamou a atenção. Sabe aquela sensação ‘’eu deveria saber quem essa pessoa é porque ela certamente está nesse meio há muito tempo e conhece isso aqui muito a fundo?”. De fato, era uma enorme falha minha não reconhecer Ann Bradshaw.

As corridas sempre fizeram parte da vida da inglesa, que nem tem lembranças dos primeiros eventos de rali nos quais esteve. ‘’Culpa’’ do irmão, que competia, ainda que em nível amador, nos anos 1950. ‘’Era uma coisa de família. Tem família que é do futebol, do rúgbi. A minha era do rally, e eu era levada aos eventos por eles. Então quando minha família ia acompanhar meu irmão, meus pais trabalhavam como fiscais na organização e eu ficava esperando no carro. Foi o que eu me contaram, eu era muito nova’’, contou Ann a Aurelie Donzelot, assessora da Alpine, no ótimo podcast dela chamado Racing Lives.

O que ela tem certeza mesmo é de lembrar de ver Jim Clark correndo com um Lotus Cortina na pista de Snetterton. Que privilégio!

Não que o gosto pelo automobilismo automaticamente tenha levado ao sonho de trabalhar no esporte. Ann sonhava em ser atriz – e quem a conhece consegue ver isso na hora, a alma de artista ainda está lá – mas os pais não gostaram da ideia. ‘’Queriam algo razoável, então me tornei jornalista.’’ Ainda assim, ela só entrou no automobilismo por coincidência, em outra função. Um amigo soube que o clube de automobilismo britânico precisava de alguém para ajudar na organização das corridas e perguntou se ela tinha interesse. Era 1971 e Ann deixou o jornalismo de lado para, num primeiro momento, ajudar a organizar corridas.

Com o tempo, ela começou a trabalhar como assessora de imprensa para o GP da Grã-Bretanha e para a etapa britânica do Mundial de Rali, entre outros eventos. Até que conheceu Andrew Marriott, que atua com automobilismo até hoje, inclusive, e que na época tinha uma empresa que cuidava do marketing da Canon. Quando a Canon se tornou patrocinadora da Williams, Ann começou uma parceria duradoura – e campeã – com o time inglês: em 1985, ela se tornou uma das primeiras assessoras de imprensa a trabalhar dentro de um time de F1.

‘’As pessoas acham que é glamouroso, que a gente só fica andando no paddock e falando com os pilotos. Quando na verdade a gente tem que controlá-los o tempo todo. Se você está ganhando, é ótimo. Se não, pode ser muito intimidador, porque você tem de encontrar a melhor maneira de defender a equipe. Somos meio mágicos. É como alguém que eu amo no esporte um dia disse para mim: se fosse fácil, uma mulher poderia fazer!’’

Ann Bradshaw

Sim, o humor britânico, sempre carregado com altas doses de ironia, e aquele jeito de ‘’menina que cresceu rodeada de meninos’’ estão sempre presentes com Ann Bradshaw. Ela é daquelas pessoas que amam o automobilismo, mas ao mesmo tempo não vê muita graça em quem se leva muito a sério.

‘’Às vezes eu vejo no paddock gente que se acha importante porque tem um plástico no pescoço. Eles agem como se tivessem vencido na vida. Você é só uma gota no oceano, curta isso.’’ 

Ann Bradshaw

E haja experiência com todo tipo de gente no paddock. E pilotos também. Ann tem algumas histórias clássicas, como ir gravar declarações de Keke Rosberg com o piloto finlandês de cueca cavada (mais de uma vez). Sobre os brasileiros, ela lembra que Senna era bem mais difícil de lidar antes de ser campeão (os caminhos dos dois se cruzaram quando ele estava na Lotus e depois, na Williams). Piquet ‘’falava os maiores absurdos’’ para a imprensa (lembrando que ela tinha que domar ele e Mansell juntos na Williams em 86) e o britânico deu muito trabalho para ela. Mas não foi o pior. ‘’Trabalhei alguns meses com Ralf Schumacher e ele não era fácil. Perdoo o Nigel. Ele sabia pilotar.’’ Ouch.

Ann Bradshaw aprendeu seu trabalho em uma época em que não havia entrevistas organizadas, então ela tentava achar os pilotos, pegava algumas declarações, escrevia os comunicados de imprensa na máquina de escrever e corria para a copiadora, para entregá-los na sala de imprensa e também pelo correio.

Não que sua carreira tenha sido só baseada na F1: no final dos anos 1990, ela saiu da Williams e se tornou freelancer. Teve pilotos de outras categorias como clientes, foi trabalhar na A1GP, na BWM. Foi nessa época de BMW que ela acabou encontrando o nicho que acabou levando-a de volta para a F1: jovens pilotos. Trabalhou com Felipe Nasr, com Sebastian Vettel, quando eles eram adolescentes. E depois Esteban Gutierrez, Daniil Kvyat, Carlos Sainz.

Até que, quando Lawrence Stroll pediu a Claire Williams uma indicação de alguém que pudesse ser assessora de seu filho Lance, a ex-chefe do time inglês ligou para a velha funcionária e amiga de seu pai, que aceitou o desafio.

Desafio mesmo, porque Lance na época dava todos os sinais de que não estava vivendo seu sonho, e sim de seu pai. Se hoje é muito difícil conseguir algo diferente dele em uma entrevista, no começo era impossível. E lá estava Ann fazendo sua mágica, tentando abastecer os jornalistas com caminhos que poderiam ser mais interessantes, incentivando Lance a desenvolver melhor as respostas. Foi justamente assim que eu prestei atenção nela pela primeira vez, quando Lance fez seus primeiros pontos, e logo em casa, no Canadá. Na terceira pergunta em que eu tentei tirar algo dele, ela disse ‘vamos lá Lance, finalmente perguntas positivas, isso não é bom?’ para ver se ele desembucha!

E pensar que, no final de semana seguinte, ela não teria tanto trabalho: molhado de champanhe pela festa do pódio, Lance pela primeira vez estava falante e com o sorriso aberto.

Não que ela se coloque numa posição de mãe, ou avó, agora que já passou dos 70 e trabalha com pilotos que se acham super experientes aos 25. Ann Bradshaw não é dessas. É uma pioneira porque é o que a vida lhe reservou. E sabe-se lá o que vem adiante: ‘’Só gostaria que as pessoas parassem de perguntar quando eu vou me aposentar. Se está divertido, vamos mandar ver!’’

3 comentários Adicione o seu

  1. Percival Bandeira disse:

    bonita reportagem, fiquei conhecendo mais uma figura importante para a F! Obrigado Percival

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  2. JONAS EDUARDO DE QUEIROZ MORAES disse:

    Belo texto. Parabéns!

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  3. Paulo Moreira disse:

    Fiquei um pouco chocado em ver como ela envelheceu, pois eu sempre me habituei a ver fotos dela dos anos noventa.
    Obrigado por mais um pedaço de história.

    Cumprimentos

    visitem: https://estrelasf1.blogspot.com/

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