Um caminho sustentável (de verdade) para a Fórmula 1

Foi no final de 2019 que a Fórmula 1 anunciou seu plano de se tornar um campeonato carbono zero a partir de 2030, com corridas sustentáveis a partir de 2025. Algo tão otimista para uma categoria que dá algumas voltas ao mundo por ano carregando toneladas de equipamento e que é tão voltada à utilização de todos os recursos para melhoria da performance que foi interpretado como conversa para inglês ver. Quase dois anos após o anúncio, há várias iniciativas sendo levadas adiante, mas uma enorme montanha a ser escalada.

Primeiramente, é preciso entender essa diferença entre ter eventos sustentáveis e ser uma categoria carbono zero: os estudos preliminares mostraram que, mesmo com todo o carbono emitido com os deslocamentos entre uma prova e outra, o grande problema para a Fórmula 1 é a emissão nas fábricas das equipes. Na AlphaTauri, por exemplo, um estudo interno mostrou que 74% das emissões totais da equipe vêm da fábrica, e 25% da logística e viagens.

O 1% que falta vem das atividades de pista, efetivamente, mais do exagero de peças que precisam ser trocadas constantemente por se tratar de um esporte de performance, e do combustível – por mais que a F1 use motores híbridos, digamos que o limite de 100kg por hora não é exatamente baixo.

Ou seja, há muito o que fazer, mas é bem mais factível diminuir primeiro o impacto das corridas em si do que de toda a operação, que concentra quase 75% das emissões. Daí a divisão em duas partes.

Mas qual é o tamanho do desafio? Nas provas europeias, os caminhões que transportam os equipamentos da F1, se alinhados, formariam uma fila de 5km. São cerca de 300. Em um exemplo positivo, diminuindo consideravelmente o número de veículos necessários para instalar seu “escritório” nas provas, de 18 para oito, e trocando a base do Reino Unido para uma posição mais central na Europa, para diminuir as viagens, a McLaren diz ter conseguido diminuir suas emissões pela metade nas corridas, ou seja, eles ainda têm um suntuoso “escritório” para impressionar seus clientes e acomodar a equipe. Mas reduzir pela metade uma pegada enorme de carbono é um começo, mas ainda não resolve todo o problema.

Tudo isso lembrando que a logística responde por 13% das emissões.

Não é de hoje que a McLaren, juntamente com a Mercedes, estão indo por essa linha, ótima para atrair novos parceiros, já que as marcas que não se identificarem com a pauta da sustentabilidade ficarão para trás. Mas é impressionante como as mudanças mais simples enfrentam uma resistência até irracional: logo antes do GP do Bahrein, a F1 avisou às equipes que o paddock seria uma área livre de plástico, ao que os times retrucaram que já tinham enviado sabe-se lá quantas garrafas para o Oriente Médio, e as usariam. E até agora, depois de 11 etapas, nada mudou.

“A mudança começa aqui”, dizia a placa apontando aonde ficava o bebedouro da F1. Que não apareceu mais no paddock

Na segunda corrida, em Imola, a F1 instalou um bebedouro no paddock, e depois ele sumiu. Dar alternativas às garrafas plásticas é uma das medidas mais básicas que existem, e nem isso a categoria tem conseguido fazer consistentemente. Faz alguns anos que eu levo minha própria garrafa e, quando comentei que levaria à FIA uma lista das pistas que não me davam a opção de enchê-la, ouvi de um jornalista da velha guarda que eu tinha que “tomar cuidado para não ficar marcada por reclamar de besteira”. Naquela época, pré-covid, a McLaren salvava eu e outros que não queriam usar garrafas plásticas, já que podíamos encher nossas garrafinhas por lá, mas agora não há mais essa livre circulação. E coube à Mercedes, nas duas últimas provas, colocar um bebedouro do lado de fora de suas instalações.

Sim, são anos de luta por um bebedouro, e nem estamos falando de performance. Isso sem contar as operações dos circuitos, consideradas péssimas na questão da sustentabilidade como aponta este estudo (no qual Mugello aparece em primeiro lugar mesmo com 48 dos 100 pontos disponíveis).

Entretanto, há um caminho interessante sendo tomado pela F1: usar sua capacidade de pesquisa e desenvolvimento voltados à performance em prol da sustentabilidade. Isso está acontecendo na área de combustível, agora que está mais claro que o caminho para carros de competição não é a eletrificação, ou pelo menos ainda não. Então o primeiro passo deve ser o desenvolvimento de combustíveis biológicos, talvez passando pelos sintéticos (que hoje ainda não atingem a octanagem que a FIA pede para a F1) e caminhando para carros movidos a hidrogênio.

A pesquisa de novos materiais também é importante para a construção dos carros em si. Utiliza-se muita fibra de carbono na F1 e isso, obviamente, é péssimo para as metas de emissão. A McLaren (de novo eles!) passou a usar em Silverstone um assento feito de fibras naturais, quase 3.5kg mais leve que o anterior e que gera 85% menos emissões ao longo de sua vida útil (contando tudo, inclusive a diminuição do peso no transporte).

Um avanço tímido? Sim, mas que mostra o caminho até para a F1 continuar relevante para a indústria (não só automotiva), e também um pouco mais sincero do que ficar correndo atrás de marcas de sustentabilidade quando o circo é tão resistente até quanto a meras garrafinhas de plástico.

2 comentários Adicione o seu

  1. Julianne, que ótima leitura sobre esse fabuloso mundo da F1.
    As ações das equipes são fundamentais nesse foco do Capital Sustentável.
    A McLaren está bem focada e com certeza adota o conceito LEAN, onde pequenas melhorias constantes levam a resultados eficazes e eficientes.
    E, sua busca pessoal por infraestrutura nos autódromos é tão importante quanto.
    Continue sua jornada.
    É uma maravilha acompanhá-la, syn!
    #shineyournature

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  2. André Ismerim disse:

    Belo texto, como sempre! Acompanho seu trabalho aqui, no YouTube e na Band, Julianne. Parabéns mais uma vez e obrigado por trazer informações relevantes pra nós apaixonados por automobilismo!

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