Memórias de 10 anos de F1 e uma dobradinha marcante: Spa e Monza

O GP da Bélgica só começa se eu vejo os parapeitos das janelas das casas das cidadezinhas que circundam a pista de Spa-Francorchamps cheias de flores. Esse é um costume que se repete em vários lugares da Europa mas, para mim, para sempre estará associado a Malmedy, o primeiro lugar em que eu vi isso. Sim, Malmedy é nome de curva, mas também uma cidade em que, na minha cabeça, as paredes das casas são cinzas, as janelas são brancas e todas elas, sem exceção, têm flores nos variados tons de rosa e de roxo.

Correndo em Spa

A mesma lembrança que sempre continuará intocada mesmo que eu corra (ou melhor, tome a coragem de correr) na pista de Spa todo ano é a da primeira vez que cheguei no topo da Les Combes. A subida da Eau Rouge é íngreme, mas você aprendeu a respeitar aquele lugar tão intensamente que passa rápido. O pior é sempre a reta Kemmel, que não parece ser uma subida na TV mas, eu garanto, é. A própria Les Combes ainda é um pouco em subida até que você vira à direita e se sente no topo do mundo. Ou pelo menos eu me senti, onde o ar era mais puro – talvez porque finalmente eu conseguisse respirar depois de alguns minutos em que toda a energia estava indo para não desistir!

Ao longo dos anos, contudo, a longa mesa de madeira no terraço da casa que costumávamos alugar se tornou quase sinônimo de Spa. Em volta daquela mesa nós rimos, cantamos, ouvimos e contamos histórias escabrosas, cantamos mais um pouco – especialmente quando Courrege e Ico se juntavam com seus violões, e perto dali (e lembro disso às gargalhadas) ouvi de um colega inglês todo desengonçado que o nosso forró (que nós brasileiros dançávamos naquela noite) parecia um tango sexy. Tango sexy? Enfim…

Recompensa pós-corrida na tal mesa

Mas a tal mesa da florida Malmedy ganhou outro sentido em 2019. Quando todas as noites felizes que dividimos ao redor dela deram lugar à mais pura necessidade de falar sobre uma experiência que poucos de nós tínhamos vivido na pista. Foi o sábado após a morte de Anthoine Hubert em um acidente horroroso na Radillon. A grande lembrança daquela noite para mim foi ver como os homens mais novos do que eu são bem diferentes dos mais velhos e, para o bem deles, ainda que muitas vezes titubeando, têm muito menos medo de colocar palavras a seus sentimentos. Todo mundo só precisava colocar para fora o que estava sentindo ao ver alguém tão jovem partindo de um jeito tão violento enquanto nós estávamos lá para escrever sobre isso, talvez “ganhar” manchetes com isso. Ainda bem que estávamos ao redor daquela mesa.

Minha experiência naquele dia tinha sido das mais marcantes, pois estava na zona de entrevistas falando com Lewis Hamilton quando o acidente aconteceu. O paddock fica bem longe daquela curva, mas também em uma zona mais alta, então o barulho foi alto e claro. Tinha acabado de fazer uma pergunta quando ouvimos a sequência de estrondos, e Lewis logo procurou o telão, que estava em um lugar que eu não conseguia ver. O que vi, pelos seus olhos, é que não tinha sido nada bom. Após uma pausa de alguns longos segundos, esperando pelo replay que não mostrava muita coisa, ele olhou de volta para mim e me disse ‘qual foi a pergunta mesmo?’ com o semblante completamente diferente. Já não importava mais.

Aqui dá para ver a distância entre a zona de entrevistas (perto dos caminhões) e a Raidillon. Foto: Julianne Cerasoli

As lembranças mudam um pouco de tom na Itália, mais pastéis, talvez por todas as pastas que comi em Monza ao longo dos anos! Minha primeira corrida como jornalista foi lá, há 10 anos, e o que lembro do primeiro dia foi ter achado graça da musiquinha que a torcida italiana tinha feito para Fernando Alonso, que eles entoavam a plenos pulmões ainda na quinta-feira, usando “Can’t Take My Eyes Off You” e substituindo as letras pelo nome de Alonso e alguns la la la iá. Nunca vi os tifosi cantarem com tanto entusiasmo como eles cantavam na torcida pelo espanhol.

Italianos divididos entre Alonso e Raikkonen em 2014

O que eu não sabia que se tornaria uma marca do GP da Itália para mim – assim como a sequência de desafios envolvendo sapatos no Azerbaijão – tinha tido seu primeiro capítulo bem na minha primeira chegada como jornalista na F1. 

Já contei milhares de vezes que no começo viajava nas minhas férias de outro emprego, arcando com todas as despesas, certo? Consegui a credencial para aquela corrida por meio do site TotalRace (hoje Motorsport no Brasil), e seria a primeira a chegar no aeroporto de um grupo de quatro jornalistas, vinda do Brasil. Claro que meu celular não funcionava na Itália e não tinha smartphone na época, então fiquei lá esperando os outros chegarem, pois iríamos juntos à cidadezinha de Mariano Comense, que eu não fazia ideia de onde ficava. Eis que todos chegaram, não me viram, e foram embora, e eu fiquei por horas esperando. De um orelhão, consegui entrar em contato. ‘Pega um táxi, depois a gente te reembolsa’. Então eu nem me preocupei muito quando vi que a corrida estava dando mais de 100 euros, porque a tal de Mariano Comense era longe. Foi um dinheiro, claro, que nunca vi de volta, e um gasto que quis dizer que eu teria que pular algumas refeições na viagem.

Monza tem seu charme (não, não tenho fotos de Mariano Comense)

Alguns anos depois, voltaria à gloriosa Mariano Comense. Alugamos uma casa no meio do nada e eu seria a única a sair na segunda-feira de manhã, sem carro. Tentei ligar para alguns táxis, mas ninguém queria me pegar. Porque a tal Mariano Comense era longe. Não havia uber ou algo parecido, nem ônibus, nem nada. A casa era no meio do nada. Então eu decidi começar a andar, com o plano de chegar até a estação de trem mais próxima.

Era longe, fazia calor. Comecei a me preocupar com o horário do voo. E prometi para mim mesma que pararia a primeira alma que passasse pelo meu caminho. Não tive coragem da primeira vez. Na segunda, me rendi. Com a maior cara de pau, perguntei se a mulher que se preparava para sair de casa com o carro sabia o telefone de algum táxi ou onde eu poderia pegar algum. Eu sabia que esse não é o tipo de informação que alguém que mora no meio do nada em Mariano Comense iria ter, mas não queria pedir carona na cara dura.

A mulher perguntou onde eu estava indo com uma mala. E me levou até a estação.

Ainda bem que os problemas com transporte não se repetiram na minha audaciosa jornada de Malmedy até Monza parando para visitar dois países no caminho, em três dias! Na época (estamos falando de 2019) ainda estava focada na minha meta de ir para todos os países da Europa até o final de 2020 o que, obviamente, tive que abandonar por conta da pandemia. Então por que não passar em Luxemburgo e depois em San Marino entre um GP e outro?

Lá fui eu pegar uma carona com outro jornalista que voaria de Luxemburgo para a Itália (uma opção bem melhor do que Bruxelas, fica a dica) até o aeroporto e um ônibus até onde eu ficaria hospedada. No dia seguinte, voei para Milão e fui, de trem e ônibus, para San Marino, e fiz basicamente o caminho de volta, esticando até Monza, no dia seguinte. Desta vez, sem sustos.

1 comentário Adicione o seu

  1. Nada como beber uma trapista na Bélgica … rs. Bom gosto

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