Raio-X do GP da Itália e como a McLaren construiu a dobradinha

Até o sábado à tarde, o GP da Itália se desenhava como um passeio para a Mercedes, que tinha a primeira fila da sprint e mostrara o melhor ritmo até então. Uma largada ruim de Lewis Hamilton, somada à decisão, que já tinha sido tomada, de pagar uma punição com Valtteri Bottas, mudaram o cenário em uma questão de segundos. Após a sprint, seria Max Verstappen quem largaria na frente e Hamilton, saindo em quarto, teria trabalho (como percebeu ao ficar preso atrás de Lando Norris no sábado) para superar as duas McLaren, que estavam entre ele e seu rival.

Mas o domingo traria outras reviravoltas. Primeiro, Daniel Ricciardo passaria Verstappen na largada, e a velocidade de reta da McLaren tornaria inútil qualquer ataque na pista. Na tentativa de fazer um overcut, a Red Bull, sempre muito consistente nos pit stops, desta vez errou, e isso fez com que Max estivesse na mira de Hamilton. E o resto é história.

Mas como a corrida chegou até esse ponto? Olhando os tempos de volta em si, a McLaren não seria páreo para a Red Bull na corrida, ainda que a diferença fosse bem menor que em outras etapas. Mas, a partir do momento em que Ricciardo pulou na frente na largada, eles tinham duas vantagens importantes: a configuração de utilização da UP usada pelo time inglês fazia com que o motor recuperasse energia no meio da reta e depois a entrega voltava, e o motor Mercedes esteve mais forte que o Honda em Monza. Para completar, como disse Norris, o carro parecia “ganhar vida” toda vez que estava sem trânsito à frente o que, convenhamos, vale para todos.

Como os carros andam com pouca pressão aerodinâmica em Monza, eles ficam mais suscetíveis à turbulência (seja ela “positiva” em forma de vácuo, seja ela desestabilizadora). Então, em um cenário no qual dois carros mais lentos (Ricciardo e Norris) estavam na frente de dois mais rápidos (Verstappen e Hamilton), eles conseguiam ficar muito perto, mas não o suficiente para tentar a ultrapassagem.

A chance de ambos seria andar de cara para o vento assim que as McLaren parassem. Não coincidentemente, foi neste momento da prova, quando o time inglês antecipou o pitstop de Ricciardo se defendendo de uma possível tentativa de undercut da Red Bull, que a corrida virou de ponta-cabeça.

Max Verstappen vinha de uma corrida muito bem dosada em Zandvoort, mas não repetiu o mesmo tipo de pensamento global que foi importante para fechar todas as portas à Mercedes na semana anterior: ele ficou o primeiro stint todo muito próximo de Ricciardo, superaquecendo seus pneus ao tentar passá-lo, quando o melhor seria manter uma distância suficiente para cuidar dos pneus e poder atacar quando o australiano parasse, usando o rendimento melhor de seu carro para conseguir um overcut.

Aqui vale um parênteses: o overcut seria a tática preferida da tarde porque, com um carro mais lento na liderança, todos ficaram mais agrupados do que de costume, o que inibe o undercut porque há menos espaço para parar cedo e não ficar travado no trânsito, além do que a maioria dos pilotos estariam trocando os médios pelos duros, que custam mais a aquecer, o que também favorece o overcut ao invés do undercut.

Mas da maneira como Verstappen gerenciou a primeira parte de sua corrida, sempre muito perto de Ricciardo, quando o australiano parou, ele não tinha borracha para responder e, ao entrar nos boxes, ele e a equipe já sabiam que era muito improvável passar o piloto da McLaren.

O erro no procedimento do pit stop, incomum na Red Bull e que provavelmente tem relação com as novas regras que começaram a valer em Spa, piorou ainda mais a situação de Verstappen, que perdeu pelo menos 9s a mais do que deveria.

Isso o colocou na mira de Hamilton, que tinha usado a durabilidade maior dos pneus duros, além de ter evitado atacar as zebras (o que diminui as chances de superaquecimento) e adotado a tática de esperar os pneus de Norris acabarem (tendo aprendido na sprint que não valia a pena forçar algo atrás de uma McLaren que era rápida nos pontos certos da reta) para passá-lo na volta 22. Essa manobra foi fundamental para que ele estivesse em posição de se aproveitar do erro da Red Bull.

Hamilton chegou ao domingo tendo de se redimir depois de errar o ponto de embreagem no sábado e se complicar no que deveria ter sido um final de semana de 28 ou 29 pontos para ele. O inglês já tinha saído de mãos abanando da sprint devido à largada ruim, e se viu novamente em desvantagem quando até conseguiu passar Norris e emparelhar com Verstappen na primeira volta, mas, sem espaço, teve de ceder.

Na volta 23, vendo a parada lenta da Red Bull, a Mercedes abandonou o plano de deixar Hamilton mais tempo na pista com os duros (a ideia era parar só perto da volta 40) e o chamou aos boxes. Tivesse tido um pit stop normal, Hamilton sairia na frente de Verstappen com certa tranquilidade. Mas a parada da Mercedes também foi lenta, e eles saíram emparelhados na primeira curva.

As chicanes de Monza sempre são complicadas porque o espaço desaparece de uma hora para a outra. Principalmente entre dois pilotos que já mostraram algumas vezes neste ano que não estão dispostos a darem um centímetro a mais um para o outro. Com estes ingredientes, a colisão era inevitável.

Do lado de Hamilton, talvez fosse mais inteligente dar um pouco mais de espaço na segunda perna a fim de evitar que Verstappen pegasse a zebra alta e perdesse o controle. Do lado de Verstappen, talvez fosse mais inteligente recolher e usar o fato de seus pneus estarem mais aquecidos para dar o troco na chicane seguinte. De qualquer maneira, é muito mais fácil dizer qualquer uma destas coisas com distanciamento de uma luta pelo título.

Com os dois postulantes fora de combate, provocando um período de Safety Car, a corrida recomeçou na volta 31 com um desenho diferente: Ricciardo continuava como líder, seguido pelo companheiro Norris, que logo se livrou de Charles Leclerc que, por sua vez, tinha conseguido se colocar ali no meio porque parou durante o SC, mas não tinha velocidade de reta para ficar lá.

A briga das McLaren seria com Valtteri Bottas, que largara em último devido a uma punição pela troca da unidade de potência, e vinha escalando o pelotão. Ele estava em sexto na relargada, com os pneus médios, e rodeado de pilotos com os duros. A diferença entre os dois compostos não foi tão grande no domingo, mas seria importante que ele atacasse logo de cara para evitar o superaquecimento que complicaria seu rendimento no final. Com 22 voltas para o fim e o melhor carro do grid em Monza, Bottas tinha chances claras de vencer.

Ele passou Sainz na volta 31 e Leclerc na 33. De cara para o vento, virou 1s3 mais rápido que o líder Ricciardo. Mas ficou travado atrás de Sergio Perez, que acabou servindo como um escudeiro para as McLaren. O mexicano tinha passado Leclerc levando uma vantagem duradoura por sair da pista, e não tinha devolvido a posição, recebendo uma punição de 5s que ele acabou não conseguindo abrir em relação à Ferrari, sendo classificado em quinto. 

Mas pelo menos impediu que Bottas pudesse atacar as McLaren, que estavam administrando o ritmo de olho no progresso do finlandês. Entre Ricciardo e Norris, o inglês sentia que tinha mais rendimento, mas decidiu jogar pela equipe porque, nas suas palavras, “não queria acabar como Max e Lewis”. E, assim, a McLaren garantiu sua primeira dobradinha desde 2010 e a primeira vitória desde 2012.

1 comentário Adicione o seu

  1. Paulo Moreira disse:

    Quem diria que a primeira dobradinha do campeonato iria ser da McLaren?
    Sobre o incidente entre Hamilton e Verstappen. Ambos poderiam ter evitado, mas é claro que nenhum dos dois vai querer dar espaço ao outro, por isso, acho que até ao fim do campeonato ainda vamos ver mais faíscas entre eles.

    Cumprimentos

    visitem: https://estrelasf1.blogspot.com/

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