Coluna Diversidade: Mudando de gênero dentro do automobilismo

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Charlie Martin tem o sonho, como tantos outros pilotos ao redor do mundo, de competir em Le Mans um dia. Como qualquer um, ela almeja não só participar, mas ter bons resultados na tradicional prova francesa. Mas a britânica de 40 anos tem um motivo maior: dar visibilidade às pessoas trans no automobilismo e fora do esporte também. 

Estou contando a história de Charlie aqui por sugestão de Sam Collins, cuja trajetória já apareceu nesta coluna. Comentava com ele sobre a reação ao post sobre ele e os ataques que recebi neste espaço e nas mídias sociais quando falei sobre um piloto homossexual. Dizia a ele que foram os comentários mais baixos e agressivos que recebi em mais de 11 anos de blog: as pessoas ao mesmo tempo me xingavam e diziam que a orientação sexual de uma pessoa não importava. Ora, se não importa, por que tanta raiva?

Em um mundo ideal, realmente não deveria importar. Mas o que vemos é que muitos ainda sentem que devem se esconder para se encaixar. O que nos traz de volta à história de hoje.

Charlie, que vem de uma família associada aos carros – ela é a bisneta de Percy Martin, engenheiro envolvido com os primórdios da Daimler – começou a competir no hill climb aos 24 anos, ainda como homem, mas já convivendo com a sensação de que não tinha o gênero que constava na certidão de nascimento. “Minha infância e adolescência foram uma mistura de emoções”, contou Martin em entrevista à CNN. “Por um lado, eu era uma criança muito feliz, mas por dentro eu tinha dificuldade com a maneira como eu me sentia.” 

A paixão pelo automobilismo acabou atrasando todo o processo simplesmente porque Charlie conhecia o ambiente com o qual estava lidando e temia a rejeição. Até que, em 2012, ela sentiu que não havia outro caminho: ou faria a transição, ou cometeria suicídio, tendo até decidido como tiraria a própria vida.  

“Eu tive que optar pela transição acima de qualquer outra coisa, para continuar vivendo, porque as coisas se tornaram tão difíceis para mim naquele momento que eu me afastei totalmente do automobilismo porque sentia que viveria uma rejeição absoluta. O que é um pensamento horrível para qualquer pessoa”.

A transição demorou dois anos, incluindo uma cirurgia de transformação facial: “Quando você olha no espelho e finalmente se reconhece, é algo muito profundo.”

Em sua volta ao automobilismo, um ano depois da transição, Charlie viveu um dos momentos mais difíceis de sua vida, temendo como seria recebida. “Mas ao mesmo tempo, você pensa ‘bom, se eu passei por uma transição, posso fazer qualquer coisa’. E você acredita mais em si.”

De fato, ela teve bons resultados em categorias menores do endurance e GT britânicos, pulando para os protótipos em 2019. Encontrando-se no endurance, Charlie foi quarta colocada em sua categoria em sua estreia nas 24 Horas de Nurburgring no campeonato VLN alemão e atualmente está no Britcar Endurance Championship.

Em todos esses campeonatos, ela é a primeira piloto transgênero a competir. Algo que ela almeja repetir nas 24 Horas de Le Mans.

Outro assunto que não pode faltar quando se fala em esporte e pessoas trans é a questão da justiça em competições. No caso do automobilismo, isso não é um problema porque as competições são mistas, mas Charlie se coloca contra o que classifica como discriminação. “Desde 2003, o COI permite que pessoas trans compitam em esportes olímpicos e, até hoje, ninguém ganhou medalha alguma”, lembrou a piloto. Há apenas um caso de uma atleta trans que competiu na Olimpíada, no levantamento de peso. E Laurel Hubbard, que competia entre os homens, e hoje disputa no feminino, não conseguiu completar nenhum arremesso em Tóquio.

Mas por que é importante quebrar todas essas barreiras? “A comunidade trans recebe muita discriminação, sistematicamente. Pessoas trans são assassinadas e atacadas diariamente ao redor do mundo. As estatísticas de bullying grave sofrido por crianças e adolescentes trans são muito, muito perturbadoras. Quando apresentamos os fatos desta maneira, ninguém pode criticar. É fácil dizer que isso não deveria ser um assunto importante mas, se eu puder levar uma mensagem positiva por meio do automobilismo, por que não posso tentar ajudar a mudar corações e mentes?”

Charlie também destaca que a comunidade LGBTQIA+ está representada em todas as ocupações, mas cujos exemplos são mais difíceis de se encontrar no automobilismo porque “muitos não se sentem à vontade para se abrir”. E por isso o diálogo neste sentido é tão importante. “Alguém pode me conhecer e não saber que eu sou trans, então eu poderia estar no automobilismo sem falar sobre isso. Mas tomei a decisão de fazer algo positivo e ter um impacto para mudar a percepção das pessoas.”

1 comentário Adicione o seu

  1. Wesley Andrade disse:

    Não tem o que acrescentar: esse assunto merece ser mais discutido não apenas no âmbito esportivo como também nas demais áreas da Sociedade. Charlie Martin mostra o que pessoas transgêneras também são capazes de competir em alto nível em qualquer esporte.

    Curtir

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