Coluna Diversidade: A conexão asiática por trás do projeto Zhou na F1

Ele chamou a minha atenção ao se aproximar do piloto da academia da Alpine Guanyu Zhou com um tom meio fraternal, e ao mesmo tempo duro e profissional, e alertá-lo para ficar “longe das baladas quando estiver em Shanghai. Lembre que você carrega a responsabilidade por mais de 1 bilhão de pessoas”. E soltou uma gargalhada. Zhou riu também, acostumado com o jeito do homem de meia idade com traços asiáticos e pele mais escura que a do piloto chinês. Eles conversavam em inglês, então definitivamente não eram do mesmo lugar.

Quem seria esse cara que claramente tinha o respeito não apenas de Zhou, mas dos outros pilotos da academia? E de onde ele vem com esses traços tão incomuns no paddock da F1?

Era a primeira vez que eu cruzava com Mia Sharizman, diretor da academia de pilotos da Alpine, uma das pessoas mais francas que já vi no paddock. Tanto, que não demorou muito para eu entender a cena que tinha acabado de ver. Todos os pilotos da academia são como filhos para ele. Mas em Zhou ele deposita um carinho especial.

E os traços? Mia é um malaio que, por meio do automobilismo, acabou mudando-se com a família para o Reino Unido para trabalhar para os franceses da Renault. E não tem nenhuma relação com a também malaia Petronas, que fez ou outra tem algum representante do país no paddock (mesmo que o combustível da Mercedes seja, na verdade, feito em uma base da petrolífera no norte da Itália, perto de Turim).

Voltando à história de Mia Sharizman, ele trabalhava na organização do GP da Malásia, que entrou no calendário da Fórmula 1 em 1999, e essa foi sua porta de entrada no automobilismo. Dali, ele percebeu a oportunidade de expansão do esporte na Ásia para além do que era de praxe na época (leia-se, Japão) e começou a trabalhar com categorias de base no continente. “Eu ajudei a montar a Fórmula BMW Asia em 2003, que foi o primeiro campeonato em que Daniel Ricciardo pilotou um carro de fórmula em 2006”, contou.

Mas o passo para a Fórmula 1 só aconteceu em 2010, quando Mia entrou na Caterham e, por conta disso, mudou-se para o Reino Unido. Para quem não se lembra, a equipe, na verdade, chamava Lotus Racing na época, e só passou a correr como Caterham em 2012, e foi fundada pelo milionário malaio Tony Fernandes.

Fernandes fez fortuna com a companhia aérea lowcost AirAsia e não demorou muito para perceber que, como dizem, a F1 é o melhor lugar para ficar rico se você chegar milionário. Ele usou a operação para comprar a Caterham Cars e sair da categoria no meio de 2014, vendendo o time (que não duraria muito tempo). 

Sharizman atuava no projeto de F2 da Caterham (na época, GP2), como chefe da equipe e também de um breve programa de jovens pilotos que acabou em 2014. O brasileiro Luiz Razia correu com Mia como chefe, assim como Alex Rossi, que depois foi para os EUA, Davide Valsecchi, que foi campeão da GP2, e dois pilotos que chegaram à F1: Guido van der Garde e, um jovem Pierre Gasly.

A experiência na base serviu como barganha para, quando a Renault voltou à Fórmula 1 como construtora, Mia bater na porta dos franceses e se oferecer para cuidar do programa de jovens pilotos, o que tem feito desde 2016.

De lá para cá, ele ainda não conseguiu alcançar sua meta de colocar um de seus pilotos na vaga de titular na F1, e é aí que entra Zhou. 

“Nós começamos esse projeto há três anos, com o objetivo de que, depois de três anos conosco, ele chegaria à F1. Essa geração só tem essa chance. Não vamos ver, em 15 a 20 anos, outro chinês com tantas chances.”

É a opinião de quem conhece o automobilismo asiático em primeira mão, mas também tem uma ponta de autopromoção: Zhou, segundo na F2, não só traz consigo os tais 1 bilhão de torcedores, como também traz consigo um belo pacote financeiro que, para a F1, estima-se que supere os 20 milhões de dólares (há quem fale em 30 fora do paddock, mas como sempre as estimativas são infladas).

Não que ele seja a única aposta de Mia, que tem em mãos Oscar Piastri, campeão da F3 e que tem feito uma excelente temporada de estreia na F2 e lidera o campeonato, tendo grandes chances de ser campeão, com duas rodadas triplas para o fim.

“Eu os trato como meus filhos. Eu já tenho três filhos e é como se eu ganhasse mais seis ao longo da temporada. Eu quero que eles tenham sucesso, tenham uma boa vida e sejam a melhor versão deles mesmos, como sempre queremos que nossos filhos sejam. Essa pode ser a melhor e a pior parte do trabalho. Às vezes você está nervoso e triste, mas eles fazem com que você tenha muito orgulho.”

Dois dos filhos de Mia são mais velhos, mas o caçula foi criado na Inglaterra. Não que ele não conheça suas raízes, já que a casa dos Sharizman em Oxford sempre tem comida malaia e eles seguem a risca as tradições do país, inclusive respeitando o ramadã e vestindo roupas típicas para comemorar o hari raya puasa, o fim do mês de jejum ao longo do dia.

E, talvez não coincidentemente, o programa da Alpine é o mais plural em termos de nacionalidades.

Aproveitar os momentos em família é importante para quem passa tantos finais de semana longe de casa. Isso porque Mia é daqueles fominhas, está sempre do lado de seus pilotos. “Nos finais de semana de corrida, eu tento tomar café da manhã com os pilotos, ter uma reunião com eles e planejar o dia. Tento fazer com que eles foquem no que é importante e no que não é. Na pista, eles ficam com sua equipe e treinador e eu apenas os observo. Quero que todos os pilotos se sintam importantes.”

Para vocês verem que não existe só uma maneira de conduzir um programa de jovens pilotos.

1 comentário Adicione o seu

  1. Igualzinho ao Helmut Marko no programa da Rede Bull.
    Muito boa essa coluna diversidade.

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