Raio-X do GP dos EUA e a confiança em Verstappen (+ Ferrari x McLaren)

Depois de conseguir minimizar o prejuízo de sua troca de UP na Rússia, tirar pontos de Hamilton em uma pista em que a Mercedes era superior na Turquia (quando foi o inglês que teve de trocar seu motor a combustão), Max Verstappen agora bateu o rival em uma pista na qual a Mercedes reinou no passado (mas não neste fim de semana), em uma batalha decidida por 1s3.

Mas como isso foi possível? O GP dos Estados Unidos foi mais uma prova com a cara da temporada 2021, decidido nos detalhes. E com outra pilotagem de alto nível dos rivais pelo título.

A história não começou tão igualada: a Mercedes dominou o primeiro treino livre de tal forma que Verstappen disse até ter saído desanimado. Mal sabia ele que os rivais estavam testando seu motor na potência máxima para entender se tinham resolvido os problemas que atormentam o time desde a Bélgica. E tinham. Tanto, que decidiram trocar o motor a combustão de Bottas para a mesma especificação que Hamilton tem desde a Turquia, o que acabou fazendo com que o finlandês perdesse cinco posições no grid e deixasse Hamilton sozinho contra as duas Red Bull na corrida.

Isso não seria problema caso a Mercedes tivesse o tal ritmo demonstrado no FP1, mas parte dele vinha dessa potência maior do motor, e outra seria perdida de duas maneiras: o carro não poderia andar com a mesma configuração que deu tanta vantagem nas retas na Turquia, pois as ondulações significavam que o assoalho batia muito no chão e poderia ser danificado na corrida. E, à medida que ficava mais quente em Austin, sempre no período da tarde (ou seja, na hora da classificação e da corrida), a traseira da Mercedes não se comportava tão bem quanto a da Red Bull (o que tem sido de praxe quando os pilotos estão sofrendo com superaquecimento dos pneus traseiros e tem relação com diferentes filosofias de rake entre os carros).

Na classificação, ficou claro que estes fatores tinham sido suficientes para equilibrar as coisas, principalmente porque a Red Bull, ao contrário do que tinha acontecido na Turquia, conseguiu otimizar o casamento entre seu carro e o circuito, e veio melhorando o rendimento ao longo do fim de semana. Tendo vantagem especialmente nas curvas rápidas do primeiro setor, Verstappen fez a pole, e largaria ao lado de Hamilton na primeira fila, com Perez em terceiro.

Em um repeteco do que vem acontecendo em Austin nos últimos anos, Hamilton aproveitou que a segunda colocação fica do lado de dentro da primeira curva, deixou o carro espalhar para cima de Verstappen, e tomou a ponta logo de cara. Até ali, o ritmo de corrida da Red Bull após as mudanças feitas da sexta para o sábado eram uma incógnita, mas não por muito mais tempo: não demorou para Verstappen identificar que a traseira do carro de seu rival escorregava muito mais que a sua, o que indicava que ele logo sofreria com o superaquecimento dos traseiros.

O que também ficava claro, para a Mercedes, era que seu ritmo com os médios era muito inferior ao que eles esperavam no calor do domingo à tarde em Austin. E o fato de Verstappen ficar colado na traseira de Hamilton mostrava quem tinha o carro mais rápido, ainda que sem margem suficiente para passar. Se Hamilton antecipasse sua parada, Verstappen provavelmente teria ritmo para evitar um undercut. E a Mercedes sequer sabia, sem ter feito simulações com o pneu duro (ao contrário da Red Bull, que o fizera com Perez) se as dificuldades continuariam com o composto branco.

A Red Bull, como de costume, não esperou a Mercedes se decidir, e arriscou. Normalmente, não se chama um piloto para tentar um undercut sabendo que ele terá que passar outro carro na pista, mas eles o fizeram, na volta 10, parando Verstappen e confiando que ele se livraria de Ricciardo e, ainda assim, ganharia tempo em cima de Hamilton. Caso o australiano tivesse segurado o holandês, é bem possível que a Mercedes parasse Hamilton e ele seguisse na frente. E havia ainda Leclerc no meio do caminho, mas a Red Bull deu sorte de vê-lo parar na volta seguinte, antes que Max o alcançasse.

O undercut estava feito, então não fazia sentido a Mercedes tentar defender o indefensável. Para ganhar a prova, Hamilton teria que ultrapassar Verstappen ou na pista, ou em um undercut na segunda rodada de pit stops. Mas o quão cedo eles estariam dispostos a parar sabendo que seus pneus estavam desgastando mais que os dos rivais?

Hamilton acabou não indo muito longe com seus pneus, temendo levar o undercut, também, de Perez, que ainda conseguia manter ritmo semelhante aos ponteiros. E parou na volta 13.

Usando sua marca de entender bem como aquecer aos poucos para poder usar ao máximo seus pneus, Hamilton foi tirando a desvantagem de 6s2 que tinha para Verstappen, chegando a perigosos 2s6. Neste momento, algo interessante aconteceu: Perez já estava sofrendo com desidratação e vinha perdendo contato com os líderes, mas perdeu muito, 4s, durante um curto VSC. Assim, ele ficou em uma posição de atrapalhar, potencialmente, Hamilton se ele decidisse parar naquele momento, e foi aí que a Red Bull aproveitou para parar Verstappen e se defender de um possível undercut.

Agora, a única chance de Hamilton seria ultrapassar na pista, com um carro um pouco mais lento, mas principalmente pior com os pneus, pois sua traseira estava menos presa. Para se ultrapassar em Austin, calcula-se que seja necessário que a diferença entre os conjuntos seja de 1s2. E o único jeito de conseguir isso é com um tyre offset, ou seja, tendo um pneu mais novo que o do seu rival.

A julgar pela maneira como Hamilton fez seu segundo stint, o plano sempre foi esse, de estender ao máximo possível essa perna, e ele acabou parando na volta 38, a 18 do final, oito depois que Max efetuou a troca, tendo de tirar 8s3. Ambos estavam com os pneus duros, já que os macios quase não apareceram no calor texano, e a Mercedes jamais voltaria para o médio com o qual sofreu tanto.

Verstappen, por sua vez, sabia desde o início de seu stint que teria de se defender no final, com a Red Bull sendo agressiva mais uma vez, chamando-o bem cedo. Ele e o engenheiro conversavam sobre o ritmo ideal para ter borracha para uma eventual defesa no final e lá pela volta 51 de um total de 56, os dois lados achavam que poderiam vencer.

Verstappen focava em ganhar tempo no primeiro setor, onde a Red Bull era superior, e teria de se defender de um Hamilton que tinha mais velocidade de final de reta. O segredo seria não deixar que ele tivesse o DRS. Com quatro voltas para o fim, Hamilton escorrega e perde tempo. Duas voltas depois, Verstappen encontra Mick Schumacher bem no ponto de detecção do DRS e aciona a asa já tendo passado o retardatário, e pode respirar aliviado, agora com 12 pontos de vantagem e sabendo que a pior parte no calendário para ele, pelo menos no papel – de Monza a Austin – já passou.

Mas essa não foi a única grande briga da tarde. Com menos de um décimo separando Sainz, Ricciardo e Norris na classificação, a disputa entre uma Ferrari que parecia ter um ritmo de corrida um pouco inferior, mas que se classificou na frente da McLaren, seria muito forte. Saindo em quarto, Leclerc fez a corrida sozinho, administrou seus pneus e ficou longe de toda a confusão que acontecia logo atrás: uma briga fantástica entre Ricciardo, Sainz e Norris, em que o espanhol não conseguiu aproveitar a aderência adicional dos pneus macios e, na verdade, acabou escorregando naquela primeira volta para tentar manter (sem sucesso) pelo menos uma McLaren atrás e começaria a sofrer com superaquecimento. Ele conseguiria, mesmo assim, se defender de uma tentativa de undercut de Norris na volta 10, e se colocaria em posição de tentar um undercut em Ricciardo na segunda rodada de pit stops, mas a parada da Ferrari foi ruim, e ele seguiu em sexto, perdendo a posição nas últimas voltas para Bottas que, por sua vez, conseguiu ganhar essa posição justamente fazendo uma estratégia de offset funcionar, chegando em sexto depois de largar em nono com a punição.

Por enquanto, é o bastante para a Mercedes seguir líder entre os construtores. Agora vem pelo menos um circuito que deve favorecer o carro da Red Bull, e a hora é de Lewis Hamilton mostrar que também sabe minimizar danos.

1 comentário Adicione o seu

  1. AUCAM disse:

    Por favor, JULIANNE, altere o título do post: não é RAIO X, É RESSONÂNCIA MAGNÉTICA NUCLEAR MULTIPARAMÉTRICA!!! Fórmula 1 eviscerada em 3 D é aqui neste blog. Parabéns!!!

    Curtir

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