Raio-X do GP do Catar e a inversão de valores no meio do pelotão

Mecânico da Alpine assiste ao pódio de Alonso. Foto: Alpine

Foi depois do GP dos Estados Unidos que todos na Mercedes diziam que o campeonato seria definido pela otimização de cada carro para cada pista. Foi uma lição que eles aprenderam a duras penas depois de terem sido batidos pela Red Bull em uma pista na qual acreditavam que teriam uma vantagem, e uma mentalidade que vem marcando a abordagem do time desde então, ajudando a mudar o equilíbrio das forças nesta reta final.

Já vimos isso quando eles não levaram um baile tão grande quanto o esperado no México, e ainda mais quando ganharam em Interlagos. No Catar, o combo longa reta, temperaturas de pista caindo à noite, e a ausência de curvas de baixa fazia a balança pender mesmo para o lado deles, mas a vantagem que se viu foi muito maior do que eles poderiam imaginar. Isso, mesmo usando um motor que já não está tão potente quando estreou, estando já na quarta corrida.

Mas não dá para julgar a diferença de velocidade de reta ou a vantagem da Mercedes só na base do motor: na classificação, eles foram 3.4km/h mais velozes nas retas, mas isso também teve a influência da asa traseira maior que a Red Bull teve de usar, depois de ter problemas com o mecanismo do DRS em sua asa de downforce médio.

Isso, contudo, não explica tudo: a Red Bull perdeu também nas curvas, e é aí que entra a questão da otimização do carro para cada condição de pista, fator em que o time de Verstappen vem pecando. No Catar, eles eram mais lentos e desgastavam mais os pneus (especialmente o C2, como ocorreu no Brasil) e, mesmo se o holandês tivesse largado em segundo, onde se classificou após uma punição por não ter respeitado bandeiras amarelas duplas, e tivesse tomado a ponta na largada, seria difícil vencer. A tranquilidade com que Hamilton manteve o rival a uma distância de 7 a 8s por boa parte da prova indica que ele poderia tentar um undercut ou mesmo o overcut e passar na pista no final.

Photo by Mark Thompson/Getty Images

Essa diferença de ritmo significa que não há muito o que dizer sobre a estratégia dos rivais: largando em sétimo, Verstappen terminou a primeira volta em quarto e apareceu em segundo no quinto giro, a 3s7 de Hamilton, limitando os danos após a punição na classificação. Essa foi a menor diferença entre eles. Sentindo que Hamilton estava forçando o ritmo, a Red Bull disse para Verstappen tentar ficar com ele, entendendo que seria uma corrida de duas paradas. Mas, como o holandês jamais ficou perto o bastante para tentar o undercut, do lado da Mercedes a tática foi apenas copiar o que ele estava fazendo. Ele só não fez o último pit stop, em que Verstappen buscou selar a volta mais rápida, que já era dele. Sem ela, a diferença entre os dois seria de cerca de 8s.

Falando em diferença, o fato de ambos terem apertado o ritmo desde o começo sabendo que fariam duas paradas ajuda a explicar o abismo entre os dois e a briga pelo terceiro lugar. Isso porque Pierre Gasly, que largou em segundo, logo começou a sofrer com os pneus e, mesmo parando duas vezes, simplesmente não tinha ritmo. Esses sobes e desces de ritmo, aliás, tiveram a mesma fonte: a pista de Losail forçou muito mais os pneus dianteiros (especialmente o dianteiro esquerdo) que os times esperavam e, quando isso acontece, alguns carros ou que são muito duros com os traseiros (como é o caso da Mercedes), ou que sofrem para colocar energia nos pneus (como Alpine e Aston Martin), tendem a se sobressair, especialmente na corrida.

Essa foi uma boa notícia para Fernando Alonso, que largava em terceiro (após as punições a Verstappen e também a Valtteri Bottas). Podendo fazer seu próprio ritmo, depois de se livrar rapidamente de Gasly, ele conseguiu fazer a estratégia de uma parada funcionar para conquistar o primeiro pódio em sete anos.

Isso só foi possível, no entanto, porque nem todos conseguiram deixar os pneus Pirelli inteiros. Sofrendo muita carga lateral em uma pista com curvas de alta e média velocidades, o dianteiro esquerdo de Valtteri Bottas estourou, quando ele vinha se recuperando de uma primeira volta muito ruim (de sexto para 11º) para beliscar um pódio. Isso acendeu o sinal de alerta na Red Bull, que também planejava fazer apenas uma parada com Perez, outro piloto que estava na luta com Alonso, e acabou mudando a estratégia do mexicano para duas paradas. Com isso, e com uma mãozinha do companheiro de Alonso, Esteban Ocon, que o fez perder alguns segundos, Perez foi quarto.

Ocon, com a mesma estratégia de Alonso, mas tendo largado em nono, foi o quinto, e Lance Stroll, saindo de 12º e também fazendo a tática de uma parada funcionar, foi o sexto. Eles ficaram à frente da Ferrari, que acabou não tendo a noite catastrófica que imaginava, chegando atrás de carros que geralmente supera com facilidade, mas pelo menos aumentando sua vantagem em relação à McLaren, mesmo apostando também em fazer uma parada em um circuito front-limited, que foi o maior fantasma do time nesta temporada.

Photo: @Scuderia Ferrari Press Office

E pensar que isso não parecia muito factível depois que Charles Leclerc teve uma rachadura no chassi e largou apenas na 13ª colocação, enquanto a McLaren tinha Lando Norris em quarto no grid. O inglês também estava fazendo uma parada e vinha na briga pelo quarto lugar, 14s à frente de Perez com seis voltas para o fim quando, também, teve um furo no pneu. Com isso, Sainz foi sétimo, Leclerc chegou em oitavo e Norris teve de se contentar com o nono lugar. Seu companheiro, Daniel Ricciardo, teve problemas no software que controla o combustível: ele indicava que era necessário poupar muito mais do que era na realidade, e a equipe só entendeu o problema quando o carro cruzou a linha de chegada fora dos pontos (e com combustível de sobra).

Não é uma notícia nada boa para a McLaren na luta pelo terceiro lugar entre os construtores, que parece decidida a favor da Ferrari. O mesmo pode se dizer da AlphaTauri x Alpine, após os 25 pontos garantidos pelos franceses. Aberta mesmo, continua a disputa pelo título, com Verstappen podendo garantir o título já na Arábia Saudita, mas sabendo que o embalo está com Hamilton.

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