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Blog takeover: A fórmula da regularidade

O texto do Eduardo Costa, que se define como um sergipano, de 23 anos, negro, jornalista, e que é fanático por F1 desde que se entende por gente, é baseado na temporada 2021, mas dá algumas dicas sobre o que será ainda mais importante nesta temporada, que deve ser a mais longa da história da categoria. Esse calendário longo, aliado ao teto orçamentário, tem mudado a cara do esporte. Mas isso quem conta para a gente é o Eduardo:

Na F1 dos calendários gigantes, regularidade é a palavra da vez

Por Eduardo Costa @eduardocandrade

Não é preciso ser um grande especialista em F1 para saber que os calendários estão ficando cada vez mais longos. Isso não é exatamente de agora: lá em 2012, já havia sido atingida a marca de 20 corridas pela primeira vez, o que chamou muito a atenção na época.

Em 2020 seriam 22, virando 17 com a pandemia; em 2021 enfim foram realizadas as 22 provas; em 2022 vem aí o recorde de 23 etapas no ano. E não se surpreendam com mais corridas: já ouvimos falar mais de uma vez pela imprensa sobre a possibilidade de 25 provas em um futuro muito próximo. Por vários motivos, a tendência é de alta.

Obviamente, quando é aberto o debate sobre o assunto, os questionamentos são sempre naturais. “Por que tantos países e ainda assim alguns tradicionais estão de fora?”, “e os efeitos desse ritmo frenético para mecânicos e demais funcionários?”, “os custos das equipes não ficarão mais altos?” e assim vai.

Mas uma coisa nem tão falada, e que ficou muito clara em 2021, é que na Fórmula 1 dos calendários gigantes, “regularidade” é a palavra da vez. Muito mais do que em outros tempos.

É óbvio que um piloto e sua equipe precisam ser regulares para conseguir bons resultados. Os constantes sempre tiveram e continuarão tendo uma grande vantagem sobre os instáveis no grid. Mas o calendário mais longo exige que estes bons resultados sejam quase sempre obrigatórios. Uma pequena sequência de erros ou “azares” pode ser fatal no trabalho de um ano inteiro. Em 2021, alguns exemplos deixaram isso muito claro.

Primeiro, a tão falada e polêmica disputa pelo título. Não vou entrar no mérito se a conquista de Max Verstappen tem asterisco ou não (para mim foi merecida e justa, apesar do que Michael Masi fez), mas é fato que o piloto holandês foi assustadoramente regular. Os números são impressionantes: das 22 corridas, ele terminou 18 sem ser afetado por nenhum tipo de acidente ou problema externo. Destas, foram TODAS no pódio em 1º ou 2º. Nenhum terceiro lugar.

Por outro lado, seu rival Lewis Hamilton teve performances mais impressionantes, dignas do maior piloto da história. Inegavelmente a melhor apresentação do ano foi dele, em São Paulo; e em recorte de corridas, é muito provável que ninguém tenha feito em 2021 o que ele fez nas quatro etapas finais.

Mas o campeonato é muito, muito longo. E a falta de regularidade nas vitórias no período em que a Red Bull foi superior acabou custando caro. Seja por erros do próprio #44, estratégias ruins da sua equipe, ou até mesmo pelo fato de que até Silverstone a Mercedes não encontrava respostas para as rivais das latinhas.

Hamilton foi absolutamente magistral nas quatro corridas finais. Mas se ainda assim ficou oito pontos atrás, foi porque o prejuízo adquirido nas 18 iniciais foi grande. E se o inglês tivesse sido octacampeão, poderíamos estar falando sobre Verstappen: “do que adiantou liderar tanto tempo e não carimbar na hora do ‘vamo ver’?”. É a regularidade.

Descendo um pouco mais no grid, a disputa interna da Ferrari é talvez o maior exemplo do que o texto quer ilustrar. Quem diria lá em fevereiro que Carlos Sainz, depois de praticamente ressuscitar sua carreira na F1 nos dois anos de McLaren, chegaria à Scuderia derrubando Charles Leclerc? Parecia improvável, mas aconteceu.

E “regularidade” é praticamente o sobrenome do espanhol. Basta ver os números de 2021. Em classificações, 14×8 para Leclerc. Em corridas, 13×9 para Leclerc. Em poles no ano, 2×0 para Leclerc. Aí na tabela de pontos… Sainz em 5º com 164,5, Leclerc em 7º com 159. Leclerc teve atuações mais chamativas em 2021. As duas poles em Mônaco e Baku (e não podemos esquecer que na primeira ele nem chegou a largar, por conta de um erro que gerou um acidente no Q3), o 2º lugar em Silverstone perdendo a corrida por pouco para Hamilton, os SEIS quartos lugares no ano e por aí vai. O ano do monegasco foi espetacular, digno de nota.

E ainda assim ficou atrás de Sainz. Sem grandes performances explosivas, sem shows pirotécnicos, com competência de sobra. Pouco a pouco, comendo quieto pelas beiradas, foi pegando ritmo e somando seus pontos. Hoje, com a perspectiva da Ferrari em trazer um grande carro para 2022, já deixa todos nós sonhando com uma grande disputa interna em Maranello. É a regularidade.

O terceiro exemplo vem do piloto que ficou justamente entre os dois na tabela do ano: o 6º colocado Lando Norris, com 160 pontos. O inglês da McLaren sem dúvida alguma foi a explosão do começo da temporada. Havia quem discutisse, considerando a força da Red Bull de Verstappen e da Mercedes de Hamilton, se Norris não seria naquele momento o melhor do grid em 2021.

Nas primeiras 15 corridas, um Norris avassalador. Pódios em Ímola, Mônaco, Áustria e Itália (este último na dobradinha da McLaren), 10 chegadas no top-5, e um 7º lugar na Rússia após fazer a pole-position. A vitória em Sochi era dele a pouquíssimas voltas do final, mas literalmente foi levada pela enxurrada, em um dos momentos mais dramáticos do ano.

Depois da Rússia, o inglês era o 4º na tabela a 12 pontos de Valtteri Bottas. Poderia até sonhar com um outrora impossível 3º lugar entre os pilotos. Caso o campeonato tivesse as 16 ou 17 corridas comuns dos anos 1990, a quarta posição era dele. Mas lembram do título? Na F1 dos calendários gigantes…


As sete corridas finais viram Norris e a McLaren despencarem em resultados. Alguns resultados ruins, outros azares inesperados, e o 4º lugar virou 6º a apenas um ponto de Leclerc, que chegou logo atrás. A impressão maravilhosa que pairava até setembro acabou não tão boa assim em dezembro.

E não só para ele, mas também para sua equipe. Após Sochi, a McLaren era a terceira entre os construtores com 17,5 pontos a mais que a Ferrari. Terminou o ano na quarta posição, com 48,5 pontos a menos. É a regularidade.

Claro que os grandes pilotos continuarão a unir grandes desempenhos e constância de resultados. A disputa pelo título até a prova final em Abu Dhabi é o exemplo claro de que os melhores são capazes de dar show, de capitalizar domínios nos famosos “sunday drives”, e vão conquistar os pontos necessários quando eles forem o máximo possível. Aquele que une o melhor dos mundos estará sempre no topo.

Mas 2021, dentre tantas lições que nos ensinou, deixou uma muito clara para quem quiser aprender. Os campeonatos com cada vez mais corridas exigem que o ano inteiro seja de grandes resultados, e não apenas recortes – mesmo que os períodos de baixa sejam curtos. Basta ver ainda o exemplo contrário, com pilotos como Daniel Ricciardo e Sebastian Vettel, e equipes como a Alpine, que tiveram picos de grandes resultados, mas não conseguiram capitalizar no geral.

É a lógica semelhante à de um campeonato de futebol: a chance de um time de baixo orçamento terminar o campeonato no G4 é muito maior em turno único do que em turno e returno, por exemplo. Em qualquer esporte é assim, e agora a categoria máxima do esporte a motor experiencia tal situação nitidamente.

Na Fórmula 1 dos calendários gigantes, regularidade é a palavra da vez.

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