Corridas e análises

Análise do GP da Grã-Bretanha

Antes de mais nada, Guanyu Zhou e Alex Albon estão bem e essa foi uma grande notícia do domingo, resultado do trabalho da Divisão Médica da FIA por décadas. Sempre há o que aprender com acidentes e é essa abordagem que nos trouxe até aqui e que vai nos levar adiante. E olha que foi um domingo daqueles. Um GP da Grã-Bretanha que teve um pouco de tudo em Silverstone. Líder do campeonato com problemas, disputa pelo pódio com três pilotos de três equipes diferentes, ordem de equipe, decisões distintas de estratégia, e que acabou com um piloto estreando no lugar mais alto do pódio, Carlos Sainz.

Se Sainz entendeu no sábado que não é necessário fazer a melhor volta da vida para largar na ponta pela primeira vez na F1, no domingo compreendeu que também não é necessário ser perfeito para vencer. Ao contrário da sexta-feira, ele não era o mais rápido da pista, mas foi quem cruzou a linha em primeiro.

É claro que o espanhol fez sua parte, andando mais próximo da ponta de Mônaco para cá, finalmente se adaptando melhor ao carro da Ferrari. Mas isso não conta toda a história.

O GP da Grã-Bretanha parecia ser de Verstappen

As mudanças de posição na primeira largada, quando Verstappen pulou na frente, acabaram não valendo porque nem todos os carros tinham passado da segunda linha de SC, na segunda curva. Em sua segunda chance, Sainz pulou na ponta mas, pressionado por Verstappen, errou na décima volta e viu o holandês passar.

Naquele ponto da corrida, Charles Leclerc já vinha mais rápido do que os dois, encontrando nas configurações de seu volante uma maneira de reequilibrar o carro depois de perder parte de sua asa dianteira na disputa com Sergio Perez (em que o mexicano se deu pior, teve de ir para o box trocar a asa e caiu para último).

No entanto, ficamos sem saber como seria a corrida com esse desenho. Verstappen encontrou o detrito deixado pela colisão entre as duas AlphaTauri, não conseguiu desviar, e o pegou com o meio do carro. A peça danificou a parte inferior do seu assoalho, e tornou o carro muito mais lento e difícil de controlar. 

Agora, a corrida parecia do Leclerc em Silverstone

O líder do campeonato estava em oitavo e a Ferrari tinha a dobradinha do GP da Grã-Bretanha com Perez no fim do pelotão. Seria uma tarde tranquila não fosse a presença de um terceiro elemento neste fim de semana, a Mercedes. Já era esperado que o W13 funcionasse bem no asfalto liso e nas curvas de alta de Silverstone, e a expectativa estava sendo comprovada por Lewis Hamilton. George Russell estava fora de combate após o acidente na largada. O carro prateado parecia sofrer mais para aquecer os pneus. Porém, assim que eles entraram na janela de temperatura, Hamilton passou a inclusive tirar tempo em relação às Ferrari.

Na ponta, a Scuderia vivia seus próprios dilemas. Mesmo com a asa danificada, Leclerc era mais rápido que Sainz e cobrava uma inversão, querendo lucrar ao máximo com o dia que parecia ruim para os dois primeiros colocados no mundial. 

Em sua defesa, Sainz sabia que tinha forçado muito os médios devido à pressão de Verstappen no início e tinha acabado com o dianteiro esquerdo. Assim, a Ferrari tentaria proteger a dobradinha dando a melhor opção para ambos. Sainz trocou os médios pelos duros na volta 20 e Leclerc, ainda com lenha para queimar, seguiu na pista.

A indecisão tinha custado mais de 3s em relação a Hamilton. Vendo que o inglês era mais rápido também que Leclerc, outro que também tinha forçado mais os pneus médios devido à quebra da asa, a Ferrari chamou o monegasco cinco voltas depois.

Será que Hamilton poderia sonhar também?

Apostando que o mesmo cenário se repetiria no final do segundo stint, Hamilton continuou na pista. Ele conseguiu levar seus pneus até a volta 33, quando já estava perdendo tempo em relação às Ferrari. Tivesse conseguido manter um bom ritmo por mais algumas voltas, poderia arriscar colocar o macio. Mas, com 19 voltas para o fim, teve de colocar um jogo de duros.

De qualquer maneira, seria o suficiente para colocar pressão na Ferrari, que havia ordenado a troca entre seus pilotos dois giros antes da parada do inglês. Novamente, Sainz estava limitando o ritmo de Leclerc, e a dobradinha estava mais protegida com o monegasco à frente.

Isso, mesmo Sainz não poderia negar. Não depois de ver o companheiro abrir 4s2 em oito voltas na liderança.

Na verdade, a preocupação de Sainz neste momento já era Hamilton, que vinha mais rápido, com pneus 13 voltas mais novos. Seria uma briga interessante de qualquer maneira, mas que acabou se tornando um thriller quando a Alpine de Esteban Ocon parou no meio da reta oposta com um problema na bomba de combustível.

Até que o SC muda a cara do GP da Grã-Bretanha de novo

O Safety Car trouxe mais um carro para a briga. Perez não tinha parado depois de trocar a asa, e ganhou um pit stop “de graça” quando já era quarto colocado, a 28s do líder. Com 6s para reagir após a entrada do carro de segurança, a Ferrari decidiu dividir as estratégias. Deixou Leclerc na pista com pneus duros desgastados e chamou Sainz para o box. Dos 14 pilotos que ainda estavam na corrida, oito pararam e seis não.

Deu para entender qual foi o erro de cálculo da Ferrari na mensagem para Leclerc via rádio, quando ele perguntou qual era a situação de corrida. “Acreditamos que o pneu macio será 0s5 mais rápido no começo, mas terá mais degradação”. Em outras palavras, eles esperavam que Sainz conseguisse segurar Hamilton com pneus iguais e que Leclerc sofreria logo de cara, mas logo conseguiria colocar temperatura em seu composto duro usado e a Ferrari manteria a dobradinha.

O que se viu na relargada a 10 voltas no final foi um pneu macio que aguentou bem até o final. Mesmo com os pilotos se degladiando na pista e um pneu duro mais de meio segundo mais lento. Sainz passou Leclerc que respondeu de forma impressionante ao ataque de Hamilton e de Perez. Ainda assim, terminou em quarto, com o mexicano pulando para segundo e deixando o inglês em terceiro.

Verstappen também terminaria a corrida nas cordas, se defendendo da Haas de Mick Schumacher fazendo linhas inesperadas na tentativa de controlar um carro com um comportamento completamente desequilibrado.

No final das contas, Sainz venceu sem ter tido uma tarde perfeita para vencer o GP da Grã-Bretanha. Mas quem teve?

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