Corridas e análises

Raio-x do GP da França e o calvário de Leclerc

As coisas não pareciam estar indo muito bem para Charles Leclerc no começo da volta 18 do GP da França. Mesmo que ele tivesse aguentado a pressão de Max Verstappen, que esteve em sua zona de DRS pelas 13 primeiras voltas da prova, a Red Bull tinha acabado de dar uma cartada importante. Verstappen tinha parado na volta 16 e colocado pneus duros para ir até o fim. O undercut já tinha funcionado, tanto é que a Ferrari nem reagiu. Leclerc teria que passar Verstappen na pista nas voltas finais da prova, com pneus mais novos, mas com muito menos velocidade de reta.

Não vimos como essa história terminaria, como tantas vezes nessa temporada. Ao que tudo indica, Leclerc errou, forçou demais em uma curva que tinha sido a grande vantagem da Ferrari ao longo de todo o fim de semana. Ninguém chegava nem perto do rendimento que os pilotos da Scuderia tinham na curva 11, 15km/h mais rápidos até que as Red Bull. Eles pareciam estar em uma liga diferente, contornando tão rápido a curva que até tomavam uma linha diferente, mais aberta. Um carro mais rápido, quando escapa de traseira, também vai embora mais rápido, e parece que foi isso o que aconteceu.

Leclerc tinha contado antes que estava tendo de pilotar de uma maneira que não era natural para ele. O monegasco gosta de um carro mais traseiro. Porém, se tentasse fazer isso com o asfalto beirando 60 graus, iria acabar com os pneus. Quando esse tipo de situação acontece, não é raro ver Carlos Sainz crescendo. Uma pena para ele que, bem neste fim de semana, o espanhol teve que levar a punição por usar o quarto motor, e ainda teria sua corrida prejudicada pelo Safety Car causado pelo companheiro.

Aposta da Red Bull deu certo

Mas primeiro vamos à corrida que Verstappen estava fazendo. A aposta da Red Bull para o GP da França era em sua asa traseira de baixa carga aerodinâmica, que dá uma vantagem muito importante. Inclusive, há quem diga que é porque ela é flexível, mesmo passando pelos testes. Era um risco utilizá-la por conta do desgaste de pneus que geralmente vem com um carro que escorrega mais. No entanto, a Red Bull acreditava que a configuração de alta pressão aerodinâmica da Ferrari iria colocar muita temperatura nos pneus traseiros.

Isso não aconteceu. Na verdade, o acerto da Ferrari foi muito eficiente para proteger os traseiros e inclusive foi isso que gerou as bolhas nos dianteiros, que não pareceram afetar o ritmo. Ou pelo menos foi o que vimos com Leclerc até ele encontrar o muro.

Ao mesmo tempo, os pneus de Verstappen aguentaram mesmo com ele seguindo Leclerc de perto. E isso indicou à Red Bull que dava para antecipar a parada e não sofrer no final.

Na Ferrari, o plano era deixar Leclerc na pista por mais cinco ou seis voltas, sabendo que voltariam em segundo. Assim, eles geraram uma diferença nos pneus que o monegasco poderia usar no final da corrida para passar Max na pista. Certamente, não seria uma tarefa fácil.

Sem Leclerc pelo caminho, Verstappen venceria pela sétima vez do ano, e aumentaria sua vantagem na ponta do campeonato para 63 pontos.

Para a nossa sorte, essa não era a única disputa em jogo.

Sainz fez 18 ultrapassagens no GP da França

Largando com o pneu duro para ficar mais tempo na pista e usar o ritmo superior do carro para recuperar o tempo perdido com pista livre, Carlos Sainz vinha abrindo caminho no pelotão. Na volta 13, já estava nos pontos. Porém, teve de antecipar sua parada em 10 a 15 voltas por conta do Safety Car gerado por seu companheiro. Tudo bem que a neutralização da corrida o fez recuperar 29s em relação ao líder. Mas também o obrigou a andar muito lento para fazer os médios chegarem até o final. Ou a fazer mais uma parada, perdendo 27s (que se tornaram 32s devido à punição pelo unsafe release no pit stop).

Em retrospecto, seria melhor para a Ferrari já ter instruído Sainz a forçar apostando que seria mais rápido parar, mesmo com a perda de tempo maior que o normal no box, a se arrastar com os médios no final. A indecisão de qual seria o melhor caminho fez com que ele perdesse tempo com Russell e depois na ótima briga com Perez, e fosse chamado aos boxes tarde demais para que a aderência adicional do pneu médio fizesse a diferença. Prova disso é que Sainz terminou a prova virando 2s mais rápido do que Verstappen. Então, embora fazer duas paradas fosse o menos arriscado e o mais correto, a demora para ter essa clareza pode ter custado um pódio para o piloto que largou em 19º.

As Mercedes bateram uma Red Bull no GP da França

Isso porque ele chegou só 11s atrás de Sergio Perez e George Russell, que brigaram pela última posição no pódio até o final do GP da França. O mexicano teve mais um fim de semana em que pareceu estar perdido com o carro, andando sempre muito mais lento que Verstappen. Na classificação, como o holandês errou em sua última tentativa, a diferença não foi tão grande. E ele saiu da terceira posição porque Sainz não era um fator devido à punição e as Mercedes mais uma vez sofreram no sábado.

Mas Perez logo perderia a terceira posição, ultrapassado por Lewis Hamilton na largada. Sofrendo com o aquecimento de pneus, o inglês foi pressionado nas primeiras voltas, porém na volta 7 ele já saiu da zona de DRS, usando a grande qualidade da Mercedes, que preserva mais os pneus que Ferrari e Red Bull. E também ajudou a decisão de usar uma configuração com menos pressão aerodinâmica para que Hamilton pudesse se defender da velocidade da Red Bull nas retas.

Ambos trocaram pneus durante o SC, assim como Russell e todos que já não tinham parado. Com os duros, Hamilton teve um ritmo melhor que Perez desde o começo, garantindo seu segundo lugar. Perez começou a ficar no alvo de Russell, até que o inglês passou a se preocupar mais com Sainz, que vinha atrás mais rápido, passou os dois e depois fez sua segunda parada nos boxes. 

Então a briga pelo último lugar no pódio ficaria entre Perez e Russell. O inglês chegaria a tentar uma manobra por dentro na volta 42, e os comissários aceitaram ver Perez nem tentar fazer a curva, contrariando suas próprias determinações. Mas ele teria outra chance, logo após o fim do Safety Car Virtual causado pela quebra de Guanyu Zhou.

O que aconteceu no final do VSC?

Houve um problema com o software da FIA que controla o VSC, e ele acabou durando um minuto a mais do que era necessário. Quando foi dada a bandeira verde, Perez estava desacelerando, confuso em relação a quando o VSC efetivamente terminaria, e Russell acelerava. Assim, a Mercedes conquistou seu primeiro pódio duplo da temporada.

Outra equipe que saiu satisfeita foi a Alpine. Eles não vinham tendo um grande final de semana até a corrida, quando colocaram ambos os pilotos nos pontos e ultrapassaram a McLaren. Lando Norris e Daniel Ricciardo sentiram o carro piorando do sábado para o domingo, quando o vento diminuiu bastante e o calor era mais intenso.

O último ponto do GP da França ficou com Lance Stroll, após uma briga forte com o companheiro de Aston Martin, Sebastian Vettel, com direito a toque. Mesmo que não tenha sido da forma mais amigável, o pontinho veio em um fim de semana em que a Aston chegou a amargar a lanterna. Eles foram ajudados pelas dificuldades da AlphaTauri (Tsunoda largava no top 10, mas foi para o fundo do pelotão após toque com Ocon e punição), Haas (que viu sua aposta de fazer duas paradas esbarrar em um SC que deu uma parada “econômica” para todo mundo), Bottas (que perdeu muitas posições no começo e não se recuperou) e Gasly e Albon, perdidos entre o desgaste alto de pneus e a falta de aderência.

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