Já ouvi de muita gente – principalmente que observa de fora – que ele não fez nada de especial. E talvez nunca faça mesmo. Esse não é seu grande trunfo. Valtteri Bottas tem todos os ingredientes para tornar a Fórmula 1 bastante chata nos próximos anos, caso tenha um carro competitivo. Afinal, é extremamente preciso, não costuma cometer erros e demonstra uma serenidade incompatível com seus 25 anos fora das pistas. Talvez seja ele o verdadeiro homem de gelo.
Bottas está apenas em sua terceira temporada na Fórmula 1, não sabe o que é terminar um ano atrás de seu companheiro de equipe, é o principal nome do mercado de pilotos para 2016 e é apontado como um futuro campeão do mundo por vários especialistas do meio – de engenheiros a dirigentes, jornalistas e até os próprios colegas. Que o finlandês é a bola da vez na Fórmula 1, ninguém duvida, mas o que faz dele um piloto em que se aposta tanto?
Bottas tem cinco títulos na carreira – dois na Fórmula Renault, dois Masters de Fórmula 3 e o mais importante, na GP3 – e vem aparecendo como um rival duro para seus companheiros de equipe. Estreou em 2013, após fazer um ano como piloto de testes na Williams, e bateu facilmente Pastor Maldonado em um ano muito difícil para a equipe.
As vacas magras ficaram para trás e a Williams melhorou em 2014. Com isso, seu trabalho apareceu mais. O piloto foi ao pódio por quatro vezes – contra duas do novo companheiro, Felipe Massa – e foi o quarto colocado no campeonato, à frente dos campeões do mundo Sebastian Vettel, Fernando Alonso, Kimi Raikkonen e Jenson Button. E também do brasileiro, que fechou o ano em sétimo.
Em 2015, mesmo tendo perdido a primeira etapa por uma lesão muscular na coluna, é o quinto colocado no campeonato e está à frente de Massa.
As classificações ainda não convencem tanto – fica a impressão de que sua tocada agressiva gere overdriving e seja contraproducente. Nas corridas, contudo, seus stints são como música para os engenheiros. Em Mônaco, por exemplo, com um carro longe do ideal, especialmente no trato com os pneus, foram 20 voltas com 0s5 entre a mais lenta e a mais rápida.
Resultados à parte, é curioso como a reputação de Bottas é bem mais forte dentro do mundo da Fórmula 1 do que entre os fãs. Isso talvez tenha a ver com a forma como o finlandês de comporta. A cada entrevista, tão logo sai do carro, ele impressiona pela visão global da corrida (algo que sempre marcou grandes campeões, que parecem ter assistido à prova da TV, demonstrando grande capacidade mental), pelo foco e pela calma. É daqueles que não parece desligar, que pensa em como atingir o objetivo de ser campeão a todo momento – até mesmo quando está tomando sua tradicional cerveja ainda no motorhome da Williams após os GPs. É claro que, para se tornar campeão na F-1, é preciso que vários fatores se unam. Mas sua parte, Bottas já está fazendo.
