O GP da Bélgica expôs como usar bem as qualidades do carro é determinante para alcançar resultados. Vimos Sebastian Vettel passando Lewis Hamilton como uma flecha na primeira volta, sem precisar de DRS, e Fernando Alonso executando duas manobras – e se defendendo de Hamilton – também com o uso da velocidade de reta de sua Ferrari.
A velocidade de reta depende de vários fatores e, com as limitações impostas ao desenvolvimento dos motores, hoje tem mais a ver com a configuração aerodinâmica e a relação de marchas. E é nisso que vamos focar hoje.
A relação de marchas é definida antes da classificação. Basicamente, ter marchas mais curtas vai melhorar o ganho de velocidade nas saídas de curva, enquanto marchas mais longas vão permitir que se continue ganhando velocidade por mais tempo em uma reta. Isso tem a ver com a limitação de giros do regulamento atual, em 17.000 rpm. Se um carro ganha velocidade mais rapidamente durante uma reta, a tendência é que ele “bata no limitador” e continue com essa velocidade constante até a freada.
Em termos de tempo de volta, é melhor ter marchas mais curtas, enquanto, durante a corrida, as marchas mais longas vão ajudar a ganhar posições. Isso falando de modo geral, porque o efeito do combustível minimiza essa diferença. Portanto, um carro “acertado para classificação” (ou seja, com marchas mais curtas) também será rápido de reta nas primeiras voltas da corrida, quando estiver mais pesado.
Voltemos à corrida: qual é a receita das vitórias de Vettel? Classificar-se na frente, tomar a ponta logo na primeira oportunidade e abrir uma diferença suficiente para não ser atacado quando o DRS estiver liberado, a partir da terceira volta. Isso tem a ver com o tipo de configuração que seu carro tem, “pacote” que inclui uma relação de marchas curta. Tanto, que quando ele não consegue se livrar rapidamente do tráfego, suas provas automaticamente se complicam porque, ao longo da prova, a tendência é que seu carro “bata no limitador” no meio da reta e ele não consiga ultrapassar. Isso também explica por que Webber se livou rapidamente de Button no começo do GP e, depois, passou o resto da corrida atrás de Rosberg.
O acerto da Ferrari de Alonso costuma ser menos agressivo nesse sentido, até porque a equipe não tem carro para se classificar na frente. Mas é lógico que o espanhol sabe que é mais fácil compensar essa deficiência nas primeiras voltas, em que o pelotão está mais homogêneo, então costuma ter inícios bem fortes. Na Bélgica, o F138 estava acertado para correr muito de reta com o DRS ativado, ou seja, com marchas um pouco mais longas do que a Red Bull de Vettel.
Quem exagerou em Spa foi a Mercedes, isso menos por uma questão de marchas e mais de carga aerodinâmica. Hamilton foi 1s mais rápido que Vettel no segundo setor, de curvas de alta, na classificação. Mas pagou caro na corrida, pois não corria nada de reta. Tanto, que seu plano de deixar Alonso passar para se aproveitar da DRS, a fim de que ambos chegassem em Vettel, acabou sendo furado porque a Ferrari, mesmo sem a asa aberta, era tão rápida quanto a Mercedes.
Essa é uma das questões que ganham grande importância para o ano que vem, pois o regulamento prevê que as equipes definam de antemão a relação das oito marchas – hoje são sete. E isso não poderá ser mudado, mesmo com os circuitos diferentes. É um desafio enorme, que pode, inclusive, obrigar Vettel a mudar sua receita vencedora.
