
Regulamento novo na Fórmula 1 é praticamente sinônimo de polêmicas técnicas, e a exclusão de Daniel Ricciardo do GP da Austrália promete ser apenas o primeiro capítulo de uma briga que pode abrir uma brecha importante.
A regra em questão, artigo 5.1.4 do regulamento técnico, diz simplesmente que “a massa de fluxo de combustível não pode exceder os 100kg/h”. Para policiar essa restrição, a FIA homologou um sensor para ser utilizado por todas as equipes, fabricado pela Gill Sensors. E é justamente a falta de precisão e confiabilidade deste equipamento que gerou toda a confusão.
Primeiro, vamos entender o regulamento, que restringe o uso de combustível de duas formas: de consumo total e de fluxo. Portanto, os carros não podem usar mais de 100kg de combustível para completar uma corrida, independentemente de sua duração, assim como não podem apresentar um fluxo acima de 100kg por hora em nenhum momento do GP. E é esta última regra que a Red Bull desobedeceu, segundo a FIA.
O leitor mais atento pode perguntar: a troco de que restringir o fluxo de combustível, uma vez que um piloto poderia administrar a potência extra em determinado ponto da corrida para partir para cima e economizar no outro para evitar gastar os 100kg totais? Os donos do esporte são contra as brigas na pista? É preciso entender que o novo regulamento cerceia bastante o que se pode ganhar com o motor a combustão (o turbo V6) para que o desenvolvimento foque nas duas unidades de recuperação de energia. Portanto, se quiser ir mais rápido, que seja mais eficiente ao usar o poder de suas baterias, e não do motor de combustão. A regra de restrição ao fluxo de combustível, portanto, ao limitar a potência do V6, vem garantir que esse “espírito” do novo regulamento seja respeitado.
Segunda questão: se foi comprovado que o carro de Ricciardo excedeu esse limite de fluxo de 100kg/h, por que a Red Bull vai apelar? O problema está na execução da regra: a equipe confia que estava dentro do limite, mas os sensores da FIA apontam o contrário. Essa discrepância já havia aparecido na sexta-feira, fazendo com o que o time decidisse trocar seu sistema de aferimento. Mesmo alertado pela FIA após a classificação que deveria retornar ao sensor antigo e diminuir seu fluxo de combustível por precaução, para evitar uma punição, o time não deu ouvidos por confiar que estava de acordo com as regras.
Certo de que o carro de Ricciardo não excedeu, em momento algum, o limite de 100kg/h, segundo seus próprios dados, Christian Horner criticou duramente o sistema da FIA. “Esses sensores de fluxo de combustível providos pela FIA têm trazido problemas para todas as equipes desde sua introdução, nos testes. Houve discrepâncias e eles não são confiáveis – inclusive alguns carros podem ter corrido sem eles ou eles podem ter quebrado durante a prova”, acusou. “Tínhamos um sensor que acreditávamos ter um erro. Baseados nos nossos cálculos de injeção de combustível, que é um equipamento calibrado e um padrão consistente, não houve variação [de fluxo].”
Horner confirmou o pedido da FIA para a equipe diminuir seu fluxo, mas decidiu não segui-lo porque acreditou que o sensor estava produzindo dados errados. “Eles nos informaram, mas nós dissemos que estávamos preocupados com seus sensores. Acreditamos em nossa leitura, caso contrário estaríamos em uma situação na qual reduziríamos muita potência mesmo acreditando que estávamos dentro do regulamento. Chegamos a uma situação em que a calibragem de seu sensor vai determinar quem é competitivo e quem não é.”
Ao que tudo indica, foi isso que seus rivais fizeram: diminuíram o fluxo e perderam potência durante a corrida para evitar uma punição, uma vez que o sensor ainda não está calibrado a contento. Os chefes de Ferrari e Mercedes, inclusive, vieram a público defender que equipes e entidade trabalhem juntas para melhorar o sistema e torná-lo mais confiável – ao invés de ignorá-lo. Agora, se a Red Bull conseguir provar em seu recurso que sua forma de medição deve ser levada em consideração e não a da FIA, é fácil entender o tamanho da briga que estarão comprando.