
Escrevo estas linhas, confesso, na correria, esperando o avião para me mandar deste país que “adoro”. Escrevo correndo também porque o tempo ficou curto depois de uma corrida em que aconteceu um pouco de tudo, até uma manobra indefensável de Sebastian Vettel para cima de Lewis Hamilton, que pode ter mudado o rumo do campeonato.
Claro que todos têm o direito de ficar de cabeça quente, mas estou com Damon Hill (e isso não é normal) quando ele diz que “um tetracampeão do mundo tem que saber controlar melhor esse tipo de situação”. Mesmo se Hamilton tivesse enfiado o pé no freio para causar uma batida, o que não aconteceu, caberia ao alemão esperar que os comissários resolvessem a situação. Ao fazer justiça com as próprias mãos, perdeu completamente a razão e a compostura.
Porém, mais impressionante que o toque proposital em si, foi a reação de Vettel, e seria estranho se o alemão mantiver essa postura depois que a poeira baixar. Ele simplesmente ignorou sua própria reação e ficou insistentemente voltando ao ato inicial que, para ele, parece justificar qualquer tipo de atitude por parte dele.
Esse não é o Vettel que conhecemos e essa não é a disputa limpa que se desenhava entre os dois. Tanto, que no paddock começou a circular a tese de que a Ferrari e o próprio alemão sentiram o golpe do Canadá e do que vinha se desenhando como outra derrota em Baku. Enquanto em Montreal a corrida da equipe italiana foi comprometida, o ritmo inferior ficou mascarado. Neste domingo, não deu para esconder.
A esperança ferrarista é uma atualização no motor, que deve chegar na próxima etapa, na Áustria. Não por acaso, Vettel disse após a corrida que “o ritmo era bom, só perdíamos um pouco na reta”. Por conta de um problema que teve ainda no terceiro treino livre, o líder do campeonato correu com uma unidade de potência “frankenstein”: a maior parte era da primeira unidade de potência, que já tinha quase 4.000km rodados, juntando com o terceiro MGU-H e turbocompressor. É o terceiro porque tanto Vettel, quanto Raikkonen, só podem usar a terceira e quarta unidades destes dois itens, os de número 1 e 2 não são seguros do ponto de vista de confiabilidade.
Na Áustria, o plano da Ferrari é atualizar tudo, menos o turbocompressor e o MGU-H, evitando, assim, uma punição. Mas será praticamente impossível que isso não ocorra ao longo do ano, dando mais um motivo para Vettel sentir-se ameaçado.
Porém, tudo isso são conjunturas e uma briga tão apertada ainda promete ter várias reviravoltas nas 12 provas que vêm pela frente. O que temos agora é Vettel com uma liderança considerável, de 14 pontos, tendo salvado bem duas corridas em que poderia ter tido um prejuízo muito maior. Só não fez um grande favor, em Baku, a sua reputação.
Falando em reputação, alguns pilotos ganharam pontos importantes neste domingo. Daniel Ricciardo, seja pela obra do destino ou não, mais uma vez foi quem trouxe o resultado para a Red Bull, recuperando-se da batida na classificação e aproveitando-se do abandono de Verstappen. Valtteri Bottas fez uma corrida sensacional, bem, pelo menos depois da segunda volta, em uma recuperação mais difícil do que a de Vettel há duas semanas, que só começou na verdade após o reinício da prova, com quase um terço das voltas disputadas. E Lance Stroll, o que dizer? Em uma pista em que muitos erraram, logo quem vinha errando mais na temporada teve um final de semana absolutamente irrepreensível. Assim como o próprio Vettel, veremos qual Stroll aparece para correr daqui a duas semanas na Áustria.