Julianne Cerasoli

Botão de auto-destruição

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“É uma pista muito especial porque você nunca fica sem fazer nada, em uma retona”, definiu Felipe Nasr cerca de uma hora antes de eu resolver, em minha primeira visita a Suzuka, encarar os 5,8km daquele que provavelmente é meu traçado favorito da temporada. E, é claro, mítico desde os tempos de criança.

Trinta e poucos minutos depois, lá estava, empolgadíssima, repetindo sem perceber o parecer de Nasr: cheia de elevações que são impossíveis de perceber pela TV e com uma sequência de curvas sempre diferentes uma da outra, é impossível se entediar em Suzuka.

A diferença é que meu ‘desafio’ no circuito japonês foi a pé, a cerca de 11km/h. E Nasr e companhia encaram uma pista que também é bem mais estreita e com os números bem mais próximos do que se vê no vídeo, a uma média acima de 200km/h!

É fácil muitas vezes tirar as coisas do contexto e duvidar dos profissionais que trabalham na Fórmula 1. Com um grid em que a diferença entre o melhor e o pior fica nos décimos, caso os carros fossem iguais, é até tentador ver um deles, tomando consistentemente 0s2 que seja e julgar, sem saber o incrível número de variáveis que podem interferir.

Na corrida, por exemplo – corrida de rua, que fique claro – mesmo em um nível amador: se você não dorme direito, não corre direito. Se a meia não está bem colocada, vai sentir dor. Se bate um vento um pouco mais forte, falta fôlego. Se estiver em um lugar bonito, provavelmente vai se sentir mais motivado e correrá mais rápido.

Imagine uma corrida de carros em que, para começo de conversa, só um engenheiro mesmo para explicar o funcionamento do motor. Oops, unidade de potência, força matriz, e por aí vai.

Dentro desse contexto, parte da mídia inglesa (sempre a mesma) tem tentado chamar de complô algo que só pode ser da natureza de um esporte tão complexo e seletivo. Não, a Mercedes não tem um botão para explodir o motor de Hamilton para dar emoção às corridas e falar coisas do tipo é um tremendo desrespeito com quem trabalha com detalhes tão mínimos que a menor das falhar gera uma cascata de problemas.

Se há uma verdade nesse período de domínio da Mercedes é que ele sempre foi acompanhado de uma abordagem bastante limítrofe de absolutamente tudo. A ideia é levar tudo ao máximo, e isso resulta em altos riscos. Não coincidentemente, vimos tanto Hamilton quanto Rosberg por várias vezes tendo de poupar freios ou com alguma falha no motor. Não coincidentemente, isso aconteceu sempre que eles foram obrigados a andar mais tempo que o normal com toda a potência disponível.

Até por isso, a Red Bull começou a dividir suas estratégias para obrigar a Mercedes a reagir dessa forma e, na Malásia, acabou funcionando, como eventualmente vai funcionar nas próximas cinco provas, começando pelo Japão em que, como vocês já sabem, não dá para ficar entediado.

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