Julianne Cerasoli

Correndo atrás do prejuízo

São apenas três corridas, somente dois pontos conquistados, mas o trabalho que Bruno Senna vem desenvolvendo na Renault já é notável. Mesmo em condições desfavoráveis – em Spa pela chuva, que lhe tirou tempo de pista no seco, em Monza pelas diferenças de tempo de volta muito apertadas e em Cingapura pela dificuldade da pista e do clima – o piloto cometeu apenas um erro – na largada da prova belga – e vem conseguindo mais que Vitaly Petrov. Não que o russo seja a oitava maravilha do mundo, mas vem claramente em evolução e estava batendo o experiente Nick Heidfeld regularmente.

Mais do que isso, estrear no meio da temporada tem sido um tormento para os pilotos nessa Fórmula 1 sem testes. São quatro horas de treinos livres por corrida – em que também se deve pensar em acerto e desenvolvimento do carro – para pegar a mão, não apenas do carro, como também dos complicados pneus Pirelli.

No último final de semana, o piloto talvez tenha enfrentado o maior desafio até agora: Cingapura tem se mostrado um circuito em que os grandes pilotos sobressaem, um verdadeiro caldeirão – devido às altas temperaturas e elevada umidade relativa do ar, somada à falta de ventilação por ser uma pista de rua – e Senna teve um carro que não andou. Creditou ter chegado à frente de Petrov a um acerto melhor, algo que claramente lhe dá muito mais confiança do que o 15º poderia transmitir.

É mais uma lição para aprender, e essa parece ser a grande qualidade do brasileiro. Em uma conversa informal em Monza, um engenheiro da Renault se disse impressionado com a velocidade como o brasileiro compreende o que deve fazer e evolui. Não se trata de um piloto instintivo, mas que vai construindo o conhecimento e a confiança aos poucos.

E não poderia ser diferente. Bruno tem um grande inimigo: o tempo. Além do fato de que completará 28 anos no próximo mês, tem uma trajetória completamente diversa de seus colegas no grid. Bruno corria de kart quando seu tio morreu e acabou interrompendo a carreira. Voltou a pilotar apenas aos 18 anos. Depois, ficou parado em 2009 após ser vice-campeão da GP2 e não conseguir uma vaga na F-1. Tem, pelo menos, nove anos de pista a menos que seus rivais com a mesma idade.

Mas mostrar serviço não é tudo. A situação interna da Renault é um enigma. Eles esperam a recuperação de Robert Kubica de um lado e precisam de dinheiro do outro. Senna traz apoio, Petrov também, e há outros, como o atual campeão da GP2 Romain Grosjean, batendo à porta. Não é difícil entender porque estas oito corridas serão decisivas para a carreira do brasileiro.

Coluna publicada no jornal Correio Popular

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