Julianne Cerasoli

Desandou

Nas entrevistas logo após as corridas, a diferença é sempre bastante clara: as respostas de Lewis Hamilton são mais ligadas à emoção, ao instinto. Ele raramente sai do carro com a noção exata do que aconteceu a sua volta. Sebastian Vettel é completamente o oposto. É como se ele, ao mesmo tempo, tivesse disputado a prova e feito um debriefing completo na sua cabeça.

A abordagem de Hamilton teve seus altos e baixos e adaptações ao longo da carreira, e agora está lhe caindo como uma luva. Já Vettel não pode dizer o mesmo e existe a impressão no paddock de que a necessidade que o alemão está sentindo de comandar a Ferrari de dentro do cockpit é seu grande adversário nesta temporada. E é difícil isso mudar tão cedo, uma vez que é algo inerente a sua personalidade.

Ele mesmo disse após mais uma derrota inesperada nas ruas de Cingapura que a Ferrari “tem os ingredientes, mas precisamos entender qual a quantidade ideal de cada ingrediente para fazer o bolo crescer.”

Neste domingo, o bolo não cresceu, muito em função da classificação desastrosa, quando a Ferrari assumiu um risco grande demais de fazer o Q2 com os ultramacios, 1s7 mais lentos que os hipers, gerando uma tensão desnecessária. E depois jogando seus pilotos no trânsito e impedindo-os de fazer uma boa preparação. Junte a isso duas voltas magistrais de Hamilton e Verstappen em um driver’s circuit e Vettel abriu seu domingo com dois carros a sua frente em um circuito em que é difícil ultrapassar.

A deficiência de potência da Red Bull ajudou e Vettel tirou temporariamente um dos obstáculos que tinha à frente, mas sempre estaria em desvantagem por andar no ar turbulento de Hamilton, dificilmente conseguindo fazer seus pneus durarem mais. Enquanto isso, Hamilton só administrou o ritmo até a janela de pit stops abrir, executou seu hammer time e fez a Ferrari arriscar não apenas o undercut, mas também usando o pneu ultramacio para tentar controlar a corrida da frente.

Mas foi uma jogada tardia, talvez em parte pelo fato do próprio Vettel, comandando a estratégia de dentro do carro, ter duvidado da “vitalidade” dos pneus de Hamilton. Some-se a isso o trânsito que o alemão pegou com Perez, e Vettel acabou se encontrando em uma péssima posição: atrás também de Verstappen e com o pneu errado. Teve sorte que Valtteri Bottas não se encontrou em momento algum do final de semana com o carro e ainda beliscou um pódio.

Mas isso não é suficiente para minimizar o estrago: Vettel e a Ferrari permitiram que Hamilton vencesse quatro das últimas cinco provas, todas em pistas em que eles foram melhores. Ao mesmo tempo em que o inglês vive seu ápice, seu rival não parece capaz de responder. E não foram poucas as vozes em Cingapura que decretaram que a receita do bolo desandou de vez.

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