
Não é a primeira vez que ouvimos Toto Wolff ameaçar usar ordens de equipe para acalmar os ânimos entre Nico Rosberg e Lewis Hamilton. Afinal, seria difícil imaginar outra reação de um chefe que vê seus pilotos se enganchando pela segunda vez em menos de dois meses. A justificativa é a mesma de sempre: os pilotos não podem prejudicar a equipe enquanto brigam entre si. Mas qual é o prejuízo para a Mercedes no momento?
A Ferrari carrega a mancha em sua reputação há anos devido à naturalização daquele tipo de ordem de equipe prévia, que engessa os pilotos. Uma coisa é liberar um piloto contra estratégia distinta. Outra é pré-determinar um resultado, como Wolff indicou, falando em impedir disputas após determinado ponto das corridas.
Todo tipo de acordo interno na equipe tem seu lado negativo. Ter um claro número 1 não é nada bom para a imagem do time – ou para a motivação do companheiro. Qualquer tipo de combinação de meio-termo (e, enquanto escrevo, lembro do acordo dos pilotos da McLaren para terem prioridade alternada na classificação em 2007, quebrado no GP da Hungria) acaba dependendo de linhas muito tênues e, por fim, liberar totalmente sempre pode fazer as corridas acabarem em lágrimas.
A questão é que o dano atual da Mercedes é apenas de pontos na tabela e de dor de cabeça para os dirigentes. O primeiro, convenhamos, não tem efeito prático: eles já estão mais de 100 pontos na frente, são superiores e não têm um rival constante, e sim duas equipes que se alternam como segunda força. E o segundo deveria fazer parte do trabalho de gestão do time.
Adotar qualquer tipo de controle, por sua vez, causaria um dano maior, tanto à imagem da Mercedes, quando ao próprio campeonato.
Além disso, ordens de equipe seriam a última coisa que Hamilton precisaria em um campeonato que se desenha complicado para ele. E, tendo um longo contrato em vigor, talvez seria a última coisa que ele cumpriria. O inglês está em plena posição de ataque, não apenas por ter 11 pontos de desvantagem após nove etapas, mas principalmente por sua situação delicada em relação à cota de unidades de potência. Em suas contas, ele provavelmente vai largar do fundo do pelotão em duas provas, que serão escolhidas a dedo, mas ainda assim com o grande risco de perder mais pontos em relação a Rosberg.
Quanto aos acidentes em si, vale a observação: Espanha e Áustria não foram as únicas vezes em que os dois se encontraram na pista recentemente. A diferença entre as vezes em que Hamilton fechou a porta, no Japão, em Austin e no Canadá, Rosberg tirou o pé. Hamilton não é disso, como já está bem documentado. Talvez quem tenha de mudar de tática seja o alemão, e não o time.