
1m75, 65kg. Braços e pernas proporcionais. Ombro estreito. Se os engenheiros da Fórmula 1 pudessem escolher, essa seria sua ‘peça’ predileta para ficar atrás do volante. Leve o bastante para permitir o uso de lastro e melhorar o equilíbrio do carro, forte o bastante para aguentar fisicamente as corridas. Pequeno o bastante para interferir o mínimo possível na aerodinâmica.
De fato, se olharmos a lista dos campeões do mundo dos últimos 15 anos, apenas Jenson Button está fora deste padrão. O inglês venceu justamente no ano em que a regra do peso mínimo começou a funcionar como uma espécie de ‘seletora natural’ de pilotos, em 2009. Afinal, foi quando houve a introdução do KERS, que pesava cerca de 40kg na época, e a manutenção das regras do ano anterior, com o peso mínimo em 605kg. Contudo, o carro de Button, que tem mais de 1,80m, era um dos que não tinha o equipamento.
Não coincidentemente, o peso mínimo aumentou de 605 para 620kg em 2010. Porém, a necessidade dos pilotos se submeterem a fortes regimes – ou mesmo se desidratarem, medida que (quem acompanha o UFC sabe bem) é o mais fácil para diminuir rapidamente os números na balança, algo perigosíssimo para a saúde – para terem um ‘custo-benefício’ interessante para os times continua até hoje.
Trata-se de uma discussão no mínimo curiosa para uma regra que foi introduzida em 1961 justamente como uma das medidas para aumentar a segurança dos pilotos.
Ao longo da história, a F-1 teve vários pesos mínimos – dos 450kg de 1961 aos 702kg atuais. Mudanças nos motores e a adição de itens de segurança, como o extintor de incêndio, foram aumentando o limite, especialmente nos últimos anos, com os ajustes feitos devido aos sistemas híbridos e o aumento da exigência dos testes de impacto.
O último aumento aconteceu em 2014, com a adoção do novo motor. Porém, isso não diminuiu a importância dos pilotos permanecerem perto daquele ideal dos 1,75m e 65kg.
Tanto, que muita gente defende dentro do circo – e até tem chefe de equipe que admite – que Nico Hulkenberg não teve, e provavelmente não terá, uma chance em time grande por ser pesado demais. Com 1,84m e uma estrutura óssea claramente mais ampla que Button, por exemplo, é simplesmente impossível para o alemão pesar menos. O próprio Button, inclusive, que impressiona pela magreza quando passa pelo paddock, diz chegar, no mínimo, a 74kg. “Você precisa de pele para cobrir os ossos e um pouco de músculo para pilotar um F-1, então é injusto”, reclama.
Outro que entrou na categoria e foi para uma equipe grande antes do ‘cerco’ contra os grandões apertar foi Mark Webber que, depois de passar anos, segundo ele, 5kg abaixo do peso ideal, comemorou “não ter que comer comida de coelho por 11 meses ao ano” após a aposentadoria.
Alguém pode estar perguntando: mas se a regra é de peso mínimo, por que a preocupação? Como tudo na F-1, a ideia é que o conjunto carro + piloto fique sempre abaixo do mínimo para que o lastro ajude a equilibrar o carro. Então, quanto mais leves os pilotos, maior a possibilidade de usar lastros e mais eficiente será o conjunto. Imagine, voltando a Webber, que tinha 74kg na época de F-1, como era correr lado a lado com um Sebastian Vettel que, pelo menos oficialmente, pesa 58kg?
Como ocorre em outros esportes, o automobilismo de fórmula de alto nível nunca foi a melhor atividade para os mais altos e a história é recheada de promessas que simplesmente não foram adiante porque não cabiam no carro.
Mas nada impede que a Fórmula 1 ou aumente o peso mínimo, ou exclua o piloto da conta – medida que, segundo os pilotos mais altos, tem sido barrada pelos baixinhos nos últimos anos. Afinal, a atual ditadura da magreza não ajuda ninguém a ser um piloto melhor.