Julianne Cerasoli

Em choque

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“O carro de Fernando Alonso espalhou na entrada da curva 3 – que é uma curva de alta, em subida, para a direita – fazendo que ele passasse na grama sintética que reveste a parte de fora da pista. Uma consequente perda de tração causou uma instabilidade, jogando-o de volta para o interior do circuito, onde ele recuperou a tração e atingiu o muro do lado direito. Nossos resultados indicam que o acidente foi causado pelos tempestuosos e imprevisíveis ventos naquela parte do circuito naquele momento, que afetou outros pilotos de forma similar.”

“Da cena do incidente, ele foi levado para o centro médico do circuito, onde recebeu os primeiros socorros e, de acordo com os procedimentos normais, foi sedado para ser transferido para um hospital. No hospital, foi feita uma profunda e completa análise de sua condição, envolvendo tomografias e exames de ressonância magnética, todas as quais foram completamente normais.”

A descrição da McLaren a respeito do acidente de Alonso no último dia de testes de Barcelona faria todo o sentido, caso não houvesse alguns fatores a mais. Entre eles, os testemunhos de Sebastian Vettel, que vinha logo atrás, e do fotógrafo Jordi Vidal, que registrou a sequência de imagens do acidente, dando conta de que foi uma batida em relativa baixa velocidade. O estado do carro, pouco danificado para trazer consequências tão fortes ao piloto, a ponto do empresário Luis García Abad dizer que ele “só sairá do hospital para voltar à vida normal, sem transições, e se para isso tivermos de continuar um, dois ou três dias aqui, de acordo com os médicos, o faremos.” E, por fim, a estranha mancha negra na lateral, justamente onde estaria localizado o MGU-K.

Primeiramente, havia, de fato, a questão do vento, citada por vários pilotos. E a relação entre o pouco dano aparente no carro e todo o cuidado em relação ao piloto também teria explicação. O comunicado da McLaren não especifica, fala em “quantidade considerável de força G”, mas alemães e italianos falam em pico de 30G, recebidos de forma lateral, o que justifica por que os pneus e suspensões estavam relativamente intactos. Então o piloto teria perdido o controle, batido de lado e raspado no muro por 15m sem que as suspensões tivessem ajudado na absorção do impacto, e isso explicaria o desmaio (ou mais de um desmaio, como atestam algumas fontes, especialmente na Espanha), pois uma grande parte dessa energia teria sido absorvida pelo próprio corpo de Alonso.

A batida me lembrou dois acidentes, por motivos diferentes, ambos em Mônaco. O primeiro, do próprio Alonso, em 2010: uma batida a 60km/h que não pareceu grave em um primeiro momento mas que, devido ao ângulo, entortou seu chassi. E de Sergio Perez, também lateral, no ano seguinte: o impacto de 80G lhe deixou com tonturas por mais de duas semanas, impedindo-o de participar da prova seguinte (ele chegou a passar pelas provas da FIA, mas desistiu após não se sentir bem nos treinos livres para o GP do Canadá).

Mas nada do que a McLaren disser no momento vai acabar com as suspeitas de que os problemas enfrentados pelo time com a vedação da MGU-K, motor responsável por transformar a energia cinética advinda dos freios em elétrica, sejam a real causa do acidente. Ainda mais com a mancha preta da lateral, indicando uma explosão.

De acordo com engenheiros da Renault, é praticamente impossível o piloto sofrer uma descarga elétrica dentro do cockpit, “ainda que não 100% improvável”. O perigo estaria ao sair e entrar do carro, pois nesse caso o corpo serviria como condutor de energia, assim como quando mecânicos e comissários tocam o carro. É por isso que os bólidos contam com luzes para indicar se estão com o sistema elétrico seguro. E as mesmas fotos que mostram a tal mancha escura no carro de Alonso demonstram que as luzes estavam verdes.

Não precisa ser nenhum gênio para imaginar o quanto o projeto da Honda estaria comprometido se a hipótese de descarga elétrica se confirmasse, ainda mais a menos de um mês da primeira etapa do campeonato. A reação do time no teste que começa já na quinta-feira será um bom indicativo para encerrar de vez (ou apenas inflamar) as especulações.

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