Julianne Cerasoli

Enfim, novas regras

Estará o domínio da Mercedes com os dias contados?
Estará o domínio da Mercedes com os dias contados?

Longe de um consenso, mas pelo menos perto de definir o que será de seu futuro, a Fórmula 1 está passando por uma das semanas mais importantes dos últimos anos. Se a aprovação do chamado ‘pacote McLaren’ ainda causa muitas desconfianças, pelo menos os acordos em relação aos motores dão um norte importante para a categoria nos próximos anos.

É bom lembrar que toda a sensação de que o esporte está com os dias contados e desconectado de sua essência surgiu com o regulamento atual, alimentado pela sensação de que o motor se tornou importante demais para determinar o quão competitiva uma equipe pode ser. Ao mesmo tempo, contudo, tais regras aumentaram o poder das montadoras de tal forma que acabou sendo interessante aos comandantes justamente apoiar essa ideia de que está tudo indo para o ralo, como desculpa para frear sua perda de relevância.

Nesse cenário, o descongelamento do desenvolvimento de motores e o estabelecimento de regras em relação ao custo e para evitar que nenhuma equipe fique sem equipamento, apesar de serem vitórias da FIA e de Ecclestone, não deixam de ser uma decisão equilibrada – e que chega a surpreender. Afinal, a Mercedes está assumindo um risco grande de perder seu domínio e aqueles que bradavam pela volta dos V8 – adivinha quem? – também tiveram de ceder.

Trata-se de uma mudança importante visando o que realmente é necessário na categoria hoje: mais competição na ponta. Os treinos livres para o GP da Rússia foram mais um dos inúmeros exemplos disso: mais de 1s de diferença do primeiro para o quarto, e 10 pilotos no mesmo segundo a partir do quinto.

Falando nos treinos em Sochi, vimos pela primeira vez na pista a solução da Red Bull para cobrir o cockpit. O projeto tem a assinatura clássica de Newey, priorizando a forma em detrimento da função, diferentemente do que acontece com o halo. Visibilidade em diferentes condições, como em caso de chuva, luz artificial, com os detritos vindos dos pneus e outros detalhes, como a possibilidade do piloto ver as luzes na largada, ainda não estão totalmente esclarecidos, mas é fato que a chamada aerotela é bem mais agradável aos olhos. Espera-se uma decisão dentro de dois meses, mas o que está claro é que a ideia vai adiante, mesmo que a maioria dos torcedores, em pesquisas realizadas pela internet, mostrem-se contrários a qualquer tipo de proteção extra no cockpit. Pelo menos até o próximo acidente grave, suponho.

As alterações nos carros, por sua vez, geram reservas por uma questão lógica: qualquer aumento da importância da aerodinâmica – e isso acontece no tal ‘pacote McLaren’ – dificulta que um carro siga o outro na pista e, consequentemente, as ultrapassagens. O fato de terem sido encomendados à Pirelli pneus duráveis, no estilo Bridgestone, também caminha nessa direção. Por outro lado, os carros continuarão tendo o DRS para ‘driblar’ parte das dificuldades aerodinâmicas nas retas, e grande parte dos 5s a menos prometidos no tempo de volta virão justamente da maior aderência mecânica dada pelos pneus.

Pesando os dois lados, Fernando Alonso fez uma observação interessante, lembrando a reverência feita ao GP de San Marino de 2005, quando ele segurou Michael Schumacher em Imola nas últimas voltas. Foi uma prova com pouquíssimas ultrapassagens mas, mesmo assim, recordada justamente pela forma como o espanhol se defendeu. Hoje, disse ele, nem vale a pena tentar fazer o mesmo: na fórmula da economia, você sabe que a ultrapassagem será questão de tempo.

Certamente, é uma questão que divide opiniões. Afinal, queremos ver dois ou três gols por jogo, como no futebol, ou centenas de cestas, como no basquete?

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