Julianne Cerasoli

Entre o nerd e o cool

De um lado, um esforço enorme para trazer nomes como Usain Bolt, Bill Clinton e Michael Buffer e fazer do grid um grande espetáculo, com direito a mudanças no regulamento especialmente para acomodar o evento. De outro, um piloto sendo tirado da antessala do pódio por uma manobra que levantou a arquibancada. A F-1 vive uma crise entre querer ser muito cool mas ter em sua raiz muita nerdice, e isso ficou claro justamente no GP onde a Liberty Media tentou dar um passo decisivo em direção ao entretenimento.

Entretenimento esse que foi garantido na pista por Max Verstappen – que não foi o único, é verdade: a agressividade foi a marca do GP dos Estados Unidos, algo que talvez seja motivado pela ótima pista desenhada por Tilke, que o diga Ricciardo, Bottas, Sainz e Vettel. Era esperado que o holandês escalasse o pelotão pela diferença de rendimento de seu carro, mas a maneira como ele fez isso, rapidamente chegando ao sexto lugar e forçando até o final fez da corrida em Austin mais uma performance que deixou o mundo da F-1 curioso para o que vem por aí nos próximos 10 ou 15 anos.

Max só vai lamentar a saída de pista com as quatro rodas na ultrapassagem em cima de Kimi Raikkonen na penúltima curva, até porque o finlandês estava tendo de tirar o pé por falta de combustível e seria presa fácil na reaceleração após a curva 20. O piloto da Red Bull não sabia disso, claro, e não foi o único a usar desse expediente. Foi o único, contudo, a ser punido.

E foi assim que o lado nerd venceu mais ou menos 1h30 depois do lado cool ter invadido o grid: a regra é clara e Verstappen a infringiu, mas a aplicação de tal regra tem sido inconsistente, gerando a necessidade de repensar o texto e examinar a consciência de quem fez um acordo para deixar os pilotos mais livres para correr. E levantarem a galera.

Levantarem como Hamilton fez com mais uma performance impecável, e se aproveitando ainda de uma Ferrari ainda aos trancos e barrancos, com Vettel pilotando um carro que mal conhecia, com atualizações importantes no assoalho – e não fazendo um grande trabalho com ele, forçando demais na parte inicial e saindo da pista em um momento crucial no “hammer time” logo após sua primeira parada. Não é a toa que não estava nem um pouco contente consigo mesmo depois da prova.

E essa tem sido a história desta temporada: na primeira vez em que tivemos um embate direto entre Hamilton e Vettel, o inglês ficou perto da perfeição com uma consistência assombrosa, e o alemão, mesmo também pilotando em alto nível, pecou nos detalhes.

Hamilton, também, teve a melhor equipe por trás: no primeiro ano em que foi verdadeiramente desafiada desde que começou a dominar a categoria em 2014, a Mercedes respondeu subindo de nível, e conquistou o mais importante de seus quatro títulos. O carro de 2017 não é dos mais fáceis de ser compreendido e por várias vezes gerou muita dor de cabeça para os engenheiros, mas a maneira como a equipe gerenciou isso, ainda mais passando o ano com poucos problemas técnicos, mostra que ninguém ganha quatro títulos consecutivos por acaso.

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