Julianne Cerasoli

Estratégia do GP da Austrália e o erro da Mercedes

Não é sempre que vemos um erro de cálculo tão básico

Há 12 meses, a Mercedes perdeu uma corrida que parecia ganha para uma estratégia inteligente e que demonstrava que a Ferrari consumia menos pneus que o time alemão. Neste GP da Austrália, a situação foi diferente: como Vettel não tinha ritmo para ir à ponta mesmo com as voltas extras que fez com o primeiro jogo de pneus, o único jeito de Hamilton perder a liderança era com um Safety Car. E, mesmo neste pior cenário possível, isso só aconteceu devido a um erro primário do sistema da Mercedes.

O GP da Austrália sempre é uma corrida estudada, pois o consumo de pneus não costuma ser alto, até pelas temperaturas relativamente amenas em comparação ao restante da temporada, mas principalmente devido ao consumo de combustível elevado. É uma pista em que se fica muito tempo em pé embaixo, e neste ano essa porcentagem aumentou, uma vez que os carros da ponta hoje têm tanto downforce que estavam conseguindo fazer mais curvas com potência total.

Por conta deste conjunto, os times sempre buscam fazer apenas uma parada, e a estratégia sempre visa proteger a posição de pista, uma vez que é bem difícil ultrapassar. Fazer isso, contudo, sempre é difícil quando se tem dois carros de uma mesma equipe podendo atacar um rival, e a melhor maneira de aproveitar essa vantagem numérica é dividindo as estratégias.

Foi o que a Ferrari fez, chamando Raikkonen aos boxes assim que o finlandês abriu diferença suficiente para voltar na frente das Haas. Isso causou o contra-ataque da Mercedes. Até aí, não há nenhum erro. O problema é que, sabendo que Vettel ficaria mais tempo na pista, cabia aos engenheiros projetarem o ritmo que Hamilton precisava adotar para sair da janela de SC. E foi nesse cálculo o problema: o sistema da Mercedes falava que Vettel precisava de 13s5 de vantagem para se aproveitar de um VSC, enquanto o tempo, na realidade, era de cerca de 10s.

Do lado da Ferrari, o VSC era a melhor coisa que poderia acontecer naquele momento da prova, pois Vettel já não tinha bom ritmo e a Haas de Magnussen, antes de sua parada, era rápida o suficiente para evitar que o alemão abrisse a diferença necessária para sair do trânsito.

Então, se a vitória de Vettel foi circunstancial, qual o tamanho da vantagem da Mercedes?

Para ultrapassar em Melbourne, a diferença de rendimento entre os carros deve ser de pelo menos 1s8. Ficou claro que a Mercedes não tem tanta vantagem por toda a segunda metade da prova em que Lewis não conseguiu atacar Sebastian de fato, mas é difícil precisar o quanto realmente existe.

Na classificação, foi uma lavada e, ao que tudo indica, Hamilton nem teve que usar todo o boost que seu motor tem. A Mercedes tem dois qualy modes à disposição, o primeiro dá cerca de 0s4 e o segundo, mais 0s2. Como ele estressa mais a unidade de potência, o ideal é não usar o último, enquanto o primeiro costuma aparecer já no Q2. Já sabendo que teria certa folga e sem Bottas no páreo, Hamilton ao que tudo indica não usou tudo o que o motor pode dar.

Em situação de corrida, contudo, o cenário é um pouco diferente, ainda que a Mercedes aparente estar mais forte que ano passado. Por outro lado, a necessidade de poupar motores e o erro de algoritmo fizeram com que Hamilton não tenha mostrado seu ritmo e a reação do inglês deixou claro que, se ele soubesse que tinha de acelerar mais logo após sua parada para impedir que Vettel abrisse 10s, teria conseguido fazer isso. Acredita-se que, pelo menos em Melbourne, que é uma pista boa para a Mercedes, a vantagem tenha sido de 0s4 por volta.

Um fator que praticamente não entrou em cena na primeira corrida foi a Red Bull. Em Melbourne, eles escolheram uma boa tática, que só não resultou em algo mais que o quarto lugar pela punição dr Ricciardo e pelos erros de Verstappen na classificação e na corrida. Especialmente com o SC ocorrendo na hora certa, era possível que um dos dois se beneficiasse de largar com o pneu mais resistente, o supermacio. Prova disso é o salto que Ricciardo conseguiu dar nesse momento na prova, o mesmo tendo acontecido com Fernando Alonso na McLaren.

Muita coisa nesse cenário deve ser diferente no GP do Bahrein, começando pelas temperaturas, bem mais altas, o circuito com trechos mais travados e a maior chance de ultrapassagens. Tudo isso deve convergir em uma prova disputada em um ritmo mais forte, com duas paradas. E nos dará mais elementos para entender quais as nuances desta temporada.

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