Julianne Cerasoli

Estratégia do GP da Itália: Mercedes dá uma de Ferrari

Há muitas maneiras de analisar o GP da Itália. Dependendo do ponto de vista, pode-se pensar em como a Ferrari perdeu ou como a Mercedes ganhou: A Ferrari perdeu porque Kimi defendeu sua posição na largada? Por conta do toque de Vettel? Pela parada no box antecipada? Pelo acerto do carro? Pelas voltas em que Raikkonen teve de forçar o ritmo logo no começo do stint? Por ter ficado preso atrás de Bottas? E a Mercedes, ganhou porque deu o drible na Ferrari na parada? Porque usou Bottas como escudeiro? Porque cuidou melhor dos pneus? Ou porque Hamilton anda imbatível?

Provavelmente, a resposta está em um caldeirão com todos estes ingredientes. Mas existe um princípio que vem antes de tudo isso, antes mesmo da classificação: A Mercedes conseguiu bater a Ferrari quando a rival era favorita agindo exatamente como a Ferrari fez por várias vezes ano passado. Sabendo que dificilmente bateria os italianos na classificação, focou em um acerto – provavelmente mais de cambagem do que de qualquer outra coisa – voltado a fazer os pneus durarem na corrida. Retardou sua parada e se aproveitou do desgaste dos pneus de Kimi no final para vencer.

Na pista, as coisas começaram a dar errado para a Ferrari na classificação, quando ficou claro que Raikkonen não seria um escudeiro e provavelmente já tinha sido avisado de que dificilmente permanece ano que vem na Scuderia. Afinal, em um circuito no qual o vácuo é importantíssimo, a Ferrari fez um Q3 equilibrado: Vettel foi ajudado na primeira tentativa, e o finlandês, na segunda. Como a pista costuma estar melhor no final, a decisão foi estranha e o alemão disse que conversaria a portas fechadas, mas o resultado foi a pole de Kimi.

Pela agressividade de Vettel nos primeiros metros, ele não esperava que o companheiro abrisse a porta, e ainda por cima se colocou em posição muito vulnerável na curva 4. Na trajetória normal e ligeiramente à frente, não seria Hamilton quem iria aliviar, e o toque jogou Vettel para o fundo do pelotão.

Sua recuperação a partir dali já estava totalmente comprometida, pois ele tinha apenas um pneu macio novo, um carro com danos no assoalho, e acabou tendo sorte com a teimosia de Verstappen na parte final da prova para ganhar dois pontinhos a mais.

O prejuízo teria sido menor caso Raikkonen tivesse conseguido vencer, mas a disputa começou a se complicar quando Hamilton não deixava o finlandês escapar. É possível que Vettel, que geralmente tem um ritmo melhor, conseguisse, mas também é preciso frisar a inteligência do inglês de usar o vácuo para não deixar o rival escapar.

Por conta disso, assim que a janela de pit stops abriu, a Ferrari chamou Raikkonen aos boxes, uma vez que o undercut era uma possibilidade real. A parada não foi cedo demais: com o ritmo certo, era possível chegar tranquilamente ao final da corrida.

O problema é que os engenheiros pediram para Kimi forçar o ritmo mesmo depois que ele já tinha uma margem tranquila para se defender do que agora seria um overcut de Hamilton, que optou por ficar na pista por mais voltas, indicando que apostaria em ter um pneu melhor no final para atacar.

Sabe-se que forçar muito no início do stint é ruim para o pneu Pirelli. Isso faz com que a temperatura suba internamente, algo que gera bolhas. A princípio isso não é um problema em termos de performance – mesmo aparentando estar em péssimo estado, o pneu não perde desempenho inicialmente por conta de blistering – mas a chance de uma quebra brusca no final do stint aumenta consideravelmente.

O resultado foi uma margem de 5 a 6s maior do que o necessário quando Hamilton fez sua parada, algo que seria inevitavelmente dizimado pela presença de Bottas na pista, com os pneus longa-vida que a Mercedes calçava por ter focado mais na corrida. O finlandês cumpriu seu papel muito bem, fazendo a Mercedes parecer um caminhão, posicionando-se no meio das freadas, e fazendo seus pneus durarem quase 40 voltas.

Quando o finlandês fez sua parada, o cenário estava pronto para Hamilton “finalizar’ Raikkonen. Como ele mesmo disse depois, é como se o piloto fosse o último elo da engrenagem, que estava perfeita até aquele momento. E ele cumpriu seu papel, manteve a engrenagem funcionando, passou um Raikkonen fragilizado devido ao estado dos pneus e conquistou – mais uma – vitória improvável nesta temporada.

Sair da versão mobile