Julianne Cerasoli

Estratégia do GP de Cingapura e o gol contra (parte 2)

Foi mais ou menos assim de novo

A vantagem de performance deveria trazer tranquilidade em qualquer esporte. Dá para entender um time de futebol entrar nervoso em um clássico e errar mais que o normal. Mas não naquele jogo em casa contra um time do meio para o final da tabela. Mas foi o que aconteceu com a Ferrari no último final de semana. A tensão que existe dentro do time foi claramente vista na pista, e a vantagem que o time demonstrou ter nos treinos livres simplesmente desapareceu.

Classificar-se na pole seria fundamental em Cingapura, um daqueles circuitos em que a posição de pista é mais valiosa que o ritmo, tanto pela dificuldade em se ultrapassar, quanto pela perda de tempo gigante, de mais de 27s, no pit stop. Então a corrida sempre seria uma questão de administrar os pneus e chegar até o final. E a Ferrari sabia bem disso, pois ganhou em Cingapura com um carro mais lento em 2010, com Fernando Alonso apenas controlando a pressão do próprio Vettel por toda a prova.

Mas a classificação dos italianos foi descrita pelo próprio Vettel como “atrapalhada”. Confiantes em seu ritmo, eles foram os únicos a tentarem passar para o Q3 com os ultramacios, em um circuito em que os hipermacios eram 1s7 mais rápidos. Com o cenário apontando para uma prova em que seria difícil ultrapassar, por que não usar o mesmo pneu que todo mundo e focar só na pole? Por que arriscar largar com um pneu menos aderente, ainda mais com o fantasma da largada de 2017 ainda assombrando o time? E, por fim, por que seguir na estratégia pré-planejada mesmo vendo Hamilton sofrer para passar do Q1 com os ultras?

Mas eles conseguiram reverter a situação a tempo e, no finalzinho do Q2, passaram com os hipermacios. Mas os erros não parariam por aí. “Eu poderia apontar que a Mercedes faz uma out-lap lenta e nós precisamos de uma rápida? Não me coloquem atrás deles”, reclamou Vettel, com razão, no Q3. Desde o início do ano, vemos que a preparação de volta voadora é diferente entre os dois times, assim como a volta de apresentação. Mas a Ferrari nervosa e sem comando soltou Raikkonen atrás de Hamilton e Vettel atrás de Bottas.

Sem a preparação correta para o delicado hipermacio, faltou aderência no início da volta e Vettel ficou longe de tirar o máximo do carro, em terceiro no grid. Enquanto Verstappen e Hamilton fizeram duas das melhores voltas que vão fazer na vida.

Aliás, que fique o registro. Muito foi dito sobre a volta de Hamilton, e o onboard não mente que foi absolutamente espetacular. Mas os números mostram que Max perdeu 0s45 nas retas, muito em função de seus problemas de motor. E ficou 0s3 atrás. Já Vettel não conseguiu melhorar na segunda tentativa, como aconteceu com outros provavelmente pela forma como a pista evoluiu, já que o hipermacio é mais sensível a mudanças de temperatura e funciona melhor com o asfalto mais frio (ou seja, é o pneu com o working range mais baixo).

Com esse cenário, Vettel só venceria ou passando Verstappen e Hamilton na largada, ou se livrando o mais rápido possível do holandês, seguindo o inglês de perto e tentando o undercut.

Vettel conseguiu passar Verstappen e estava a 1s1 de Hamilton na volta 11, muito perto de quando começariam os pit stops (a previsão era entre 11 e 13, mas sem o SC), quando duas mensagens de rádio definem a prova. Hamilton é questionado sobre os pneus e indica que deve parar logo, no que parece ser uma mensagem codificada para o Hammer time. E o engenheiro de Vettel lhe passa essa informação. A resposta do alemão é “eu não acredito nele.” Depois perguntei para Vettel se lhe surpreendeu o ritmo de Hamilton no final desse stint e ele disse que não “pois ele desgastou menos os pneus andando na frente”. Então por que eles deixaram a chance do undercut passar?

Isso porque, independente das mensagens, o cronômetro mostra que Hamilton tem, sim, mais ritmo nos pneus e abre mais de 1s em duas voltas. A Ferrari, então, para Vettel e coloca os ultramacios, única chance que eles teriam de um undercut, mas o alemão sai atrás de Perez e perde mais 1s3 por conta disso e, é claro, o undercut não só não funciona, como o deixa exposto a Verstappen, uma vez que forçar demais os pneus logo de cara os destroi rapidamente, como Raikkonen descobriu em Monza.

A questão para a Ferrari é que eles jamais deveriam ter se colocado nessa situação de ataque. Assim como Monza, era uma corrida que eles só poderiam perder para si mesmos. E conseguiram.

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