
Por várias vezes nos posts de estratégia desta temporada, discutimos como detalhes têm feito uma grande diferença na apertada disputa deste ano. E mesmo que haja quem possa querer simplificar e jogar na mão da sorte ou do acaso o que estamos vendo nas últimas provas, o fato é que a Ferrari muito provavelmente vai perder esse campeonato por negligenciar justamente os detalhes.
Deve ter sido doloroso para a equipe ver a lista de peças trocadas pela Mercedes no carro de Hamilton depois da classificação: lá estava ela, a vela de ignição, que não foi trocada no carro de Vettel, mas estava desgastada, causando um abandono que, na prática, tornou a difícil missão do pentacampeonato praticamente impossível.
Isso, porque o desgaste nesta peça especificamente não é coincidência, pois ela é forçada pelo uso de óleos lubrificantes no processo de combustão, algo que vem causando polêmica e várias ramificações desde os testes de pré-temporada.
Um deles foi o fato da Mercedes ter optado por estrear sua última atualização do motor do ano na corrida anterior à qual a FIA limitou a quantidade de lubrificante permitida. A Ferrari optou por não aproveitar a brecha, acreditando que o tempo ganho para sua atualização permitiria um ganho maior. Mas arriscou tanto que a unidade de potência de Vettel acabou quebrando antes de ser atualizada.
Red Bull arrisca tudo
Estrategicamente, tinha tudo para ser uma prova muito interessante na ponta, uma vez que, como era necessário andar um pouco mais lento para garantir que se faria apenas uma parada – já que isso não era confortável nem com a temperatura amena do sábado, portanto muito menos confortável com os 17 graus a mais do domingo – o undercut seria muito efetivo. E poderia ter mudado a história da corrida caso Vettel não tivesse ficado pelo caminho, ainda mais com a grande largada que teve mesmo com cerca de 150 cavalos de potência a menos pelo problema no motor que acabou tirando-o da prova.
Prova disso é que a Red Bull, que tinha um ritmo inferior à Ferrari neste final de semana, até tentou se aproveitar do undercut, e obrigou Hamilton a parar antes do programado e se expor na parte final da prova, fazendo 31 voltas com os pneus macios.
A defesa da Mercedes incluiu, ainda, a ajuda de Valtteri Bottas, que deixou Hamilton passar e segurou Verstappen, o que deu cerca de 3s de respiro para o companheiro, mas também significou que o finlandês não teria tempo suficiente para pressionar Ricciardo por um pódio que, àquela altura, parecia certo.
A conquista do inglês também teve outra complicação: os três acionamentos do SC – dois deles virtuais – porque a Red Bull estava aquecendo seus pneus com mais facilidade. Há quem possa se perguntar como o VSC pode afetar a disputa, e vale comentar um detalhe técnico que muitas vezes passa batido: quando a corrida está com SC virtual, o piloto recebe em seu volante um delta de tempo que precisa seguir. Isso segue um algoritmo que se baseia em distância, ou seja, o piloto pode escolher, na prática, fazer as retas indo de um lado ao outro para buscar aquecimento nos pneus, ou em linha reta, e Verstappen fez a segunda opção por saber da dificuldade do rival, e por isso colou nas oportunidades que teve.
Uma delas foi na parte final, momento em que Verstappen chegou mais próximo de Hamilton na corrida, também entrou em jogo outro fator: a Mercedes costuma perder muito rendimento quando pega tráfego, ainda mais em pistas de curvas de alta velocidade, como é o caso de Suzuka. Porém, assim que se livrou o trânsito, o inglês retomou o controle das ações e colocou uma mão no caneco.