Julianne Cerasoli

Eu já sabia

Deixar uma equipe com muito potencial, mas que não tem estado em posição de lutar por campeonatos nos últimos quatro anos e ir para um time em ascensão, mas que parece estar longe das vitórias com regularidade. Essa foi a decisão de Lewis Hamilton em 2012. E é o caminho escolhido por Daniel Ricciardo para o ano que vem.

Já sabemos como a história de Hamilton acabou se desenhando: quando o inglês assinou com o time, ele já se preparava para uma mudança de regulamento bastante extensa, que alteraria não só as regras, mas principalmente os ingredientes para um time ser vencedor. A partir do descongelamento dos motores, ser uma equipe de fábrica se tornou essencial e foi aí que sua McLaren ficou definitivamente para trás – em 2012, ainda que tenha ficado longe de ganhar o campeonato, o time teve muito provavelmente o melhor carro ao longo do ano – e a Mercedes passou a ser a equipe a ser batida.

Claro que Hamilton não podia prever o tamanho de seu acerto e até o próprio Ricciardo questiona isso. Perguntei recentemente ao australiano se ele se imaginava “dando uma de Lewis”, pensando no regulamento de 2020, e ele disse que o inglês “costuma dizer que mudou de equipe porque sabia que a Mercedes ia dominar, mas eu acho que foi sorte”. Mas parece ser justo apontar que aquela decisão de 2012 teve os dois ingredientes: o regulamento de 2014 colocava mais ênfase nas montadoras novamente, mas o domínio dos alemães, nas proporções que vimos, era imprevisível.

No caso de Ricciardo, também parece haver esses dois ingredientes. Os números comprovam que a Renault é a equipe que mais vem crescendo nos últimos dois anos. Quando os franceses reassumiram o controle do time que estava nas mãos da Genii, no final de 2015, ela tinha 400 funcionários e estava desatualizada. De lá para cá, o investimento foi pesado e a expectativa é de que a Renault tenha, no final deste ano, 700 funcionários, ou seja, volte a ser do tamanho de Mercedes, Ferrari ou Red Bull. As contas também vão bem: a Renault teve o primeiro ano de lucro na década em 2017, o que estimula a montadora a seguir investindo.

Ao mesmo tempo, o time ainda está longe dos líderes e sequer se firma como o melhor do segundo pelotão, enquanto aquela Mercedes com a qual Hamilton assinou já tinha vencido corrida e chegado a pódios em 2012. Não será uma diferença fácil de se tirar especialmente porque parte dela vem justamente do motor Renault.

Não foi por acaso que Ricciardo falou que esta foi “a decisão mais difícil” de sua vida.

Porque existe o exemplo de Hamilton e também existe o de Fernando Alonso, que trocou uma Ferrari desacreditada por uma McLaren esperançosa com a parceria com a Honda. No entanto, a trajetória de Ricciardo tem mais cara de Hamilton do que de Alonso, uma vez que sempre seria mais difícil para a Honda ter um motor no mesmo nível dos demais tendo começado o desenvolvimento bem depois, e foi esse o preço que a McLaren pagou por três anos.

Assim como aconteceu com o time inglês, hoje fala-se que a Honda “tem tudo para” fazer uma parceria de sucesso com a Red Bull. De fato, as Toro Rosso não têm sofrido tanto quanto a McLaren, tanto em relação à confiabilidade, quanto de potência, mas a diferença ainda existe: são Gasly e principalmente Hartley os pilotos que usaram mais motores até aqui, de longe, e repete-se o padrão da McLaren de bons resultados em pistas mais travadas, como na Hungria, ainda que a discrepância não tenha a mesma proporção.

Assim como a parceria Red Bull-Honda, a história de Renault e Ricciardo não deve ter “final feliz” tão já. Como Hamilton não buscava o título em 2013, o australiano também mira de forma realista em 2021. Lá, teremos um regulamento completamente diferente e, com uma estrutura que pode competir de igual para igual com as grandes, a Renault tem a chance de virar a nova Mercedes. E Ricciardo poderá dar uma de Hamilton e levantar a plaquinha do “eu já sabia”.

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