
Os céticos apontariam que a Mercedes conquistou uma dobradinha mesmo em um dia no qual os coisas poderiam ter se complicado para o time. Os mais otimistas viriam o GP da Austrália como a prova cabal de que teremos um campeonato disputado em 2016. Mas a verdade é que ainda é difícil sustentar os argumentos para qualquer um dos lados. O fato é que, em um final de semana no qual a F-1 deixou pelo caminho duas de suas mudanças para aumentar a competitividade – o formato de classificação e o impedimento de discutir estratégia no rádio, aquela alteração que sobreviveu intacta, da maior liberdade da escolha de compostos, acabou ganhando o dia.
Claro que muito do fato dos seis primeiros terem tido estratégias diferentes e de nove pilotos terem usado so três compostos disponíveis durante a prova tem a ver com seu momento capital, a bandeira vermelha causada pelo fortíssimo acidente de Alonso na volta 18. Ali, a Ferrari jogou sua corrida fora, julgando erroneamente a diferença de ritmo entre o supermacio e o médio, e foi criada a oportunidade para o resultado mais incrível do dia, o sexto lugar de Grosjean com a estreante Haas.
Curiosamente, a decisão de usar o francês, que ainda não havia parado antes da paralisação e, com isso, havia ganhado várias posições, foi de uma estrategista vinda justamente da Ferrari, Ruth Buscombe.
Até a bandeira vermelha, as coisas caminhavam razoavelmente bem para Vettel, que apostara em utilizar o jogo de supermacios guardado na classificação para abrir 5s de vantagem para Rosberg. Além disso, o fato do tetracampeão, mesmo usando a pior estratégia do top 6, ter terminado a menos de 10s do alemão – e em uma pista que a Ferrari não considerava ser das melhores para seu carro serviu para animá-lo para o restante da temporada.
Porém, é de se lembrar que a história poderia ter sido muito diferente caso as Mercedes tivessem largado bem, uma vez que o ritmo é sempre melhor de quem tem pista limpa – como o próprio Vettel reconheceu, aliás. Do lado alemão, por sua vez, a saída ruim não foi uma novidade: já havia sido observada nos treinos livres e é algo que a equipe vê como prioridade para as próximas etapas. Um cenário em que os dois carros mais rápidos largam mal e podem se complicar seria o bastante para animar a temporada, mas após apenas a disputa de uma etapa – que costuma ser caótica por natureza – o jeito é parafrasear Kimi Raikkonen e esperar para ver.
Mas os pontos interessantes da corrida não se restringiram aos 3 primeiros. A Red Bull demonstrou, por todo final de semana, um ritmo suficiente para ligar o sinal de alerta na Williams. Prova disso é que Ricciardo não fez a melhor estratégia e, ainda assim, chegou mais de 30s à frente de Massa.
Mais atrás, Hulkenberg fez outra de suas corridas competentes e silenciosas, salvando um sétimo lugar mesmo com a Force India errando na estratégia. E Max Verstappen deu um de seus chiliques de costume – mas desta vez não foi acobertado pela Toro Rosso. Palmer, por sua vez, fez uma estreia mais sólida do que se esperava, superando Kevin Magnussen por todo o final de semana.
Já a McLaren estava na zona de pontos o tempo todo com Alonso, mas foi uma das que errou na estratégia. O lado positivo é que tanto o espanhol, quanto Button, conseguiram se defender no meio do pelotão, indicando que os problemas de uso de MGU-H do motor Honda foram em grande parte resolvidos. Porém, a falha tática fez com que o inglês só superasse Nasr e Wehrlein, em uma prova que acabou caindo como um duro golpe para a Sauber, especialmente na comparação direta com a também cliente Ferrari Haas.
Mas a cena do dia é o acidente de Alonso que, ao mesmo tempo em que reforça a noção da importância de trabalhar em prol da segurança da F-1, deixa claro que a implementação de qualquer tipo de proteção adicional à cabeça do piloto tem de ser estudada de maneira bastante séria. Certamente mais séria do que algumas das mudanças orquestradas de forma desastrosa para 2016.