De um lado, Niki Lauda e Mika Hakkinen, que voltaram depois de acidentes sérios e foram campeões do mundo. De outro, Karl Wendlinger e Didier Pironi. Na próxima sexta-feira, o acidente de rali que tirou Robert Kubica desta temporada de F1 completa três meses, e ainda é cedo para afirmar qual caminho o polonês seguirá. Recém saído do hospital em que passou por cirurgias na mão, cotovelo, ombro e perna direitos após ser atingido por um guard rail numa batida durante o Rali de Andorra, em fevereiro, o piloto ainda tem um bom período de recuperação pela frente.
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De acordo com o diretor de ortopedia do hospital em que Kubica esteve internado, Dr. Francesco Lanza, os médicos não podem garantir a volta do piloto, nem afastá-la. “Sua recuperação funcional nos surpreendeu: se vai permitir que ele faça algo tão específico como pilotar um carro de Fórmula 1, ainda é muito difícil dizer.”
O motivo para tode esse cuidado são as lesões nos nervos. O piloto quase teve a mão amputada devido a uma lesão bastante extensa no antebraço. Portanto, estamos falando de ossos, músculos, tendões, articulações, ligamentos… e nervos. Cada um desses elementos exige um processo – e tempo – de recuperação diferente.
Um nervo é uma espécie de cabo condutor de eletricidade, encarregado de carregar impulsos nervosos da medula até os músculos e também, em sentido inverso, transmitindo informações nervosas vindas da pele, músculo, articulações e órgãos internos até a medula. Assim, no caso de lesão de um nervo, todos os músculos inervados pela parte afetada sofrerão paralisia.
A maioria dos nervos das extremidades é mista, ou seja, quando afetados, provocam a perda de sensibilidade em uma parte da pele e de força, em determinado grupo de músculos. Por exemplo, nas lesões do nervo radial no braço – não foi divulgada que parte do antebraço de Kubica foi particularmente atingida –, o indivíduo perde a capacidade de estender a mão e os dedos, além da sensibilidade em parte do dorso da mão entre o primeiro e segundo dedos.
Quando há uma lesão grave nos nervos, que requer cirurgia, a reconstrução não dá um resultado imediato. Os chamados cotos são religados, mas a função dos nervos é reconstituída aos poucos. São os axônios, parte do neurônio responsável pela condução dos impulsos elétricos, que têm que se reconstruir, e seu crescimento é em torno de um milímetro por dia. Por isso, o período de recuperação após a cirurgia pode durar de um a quatro anos, dependendo do nervo lesado e do local da lesão.
Nesse período, a fisioterapia é particularmente importante para previnir que os tendões se ‘encurtem’. No caso de Kubica, esse trabalho também é fundamental para curar as demais lesões.

“Lembre-se de que suas maiores lesões foram nos nervos, que levam mais tempo para curar. Poderemos fazer a primeira avaliação da recuperação seis meses depois do acidente”, lembra o médico, que destaca a motivação do piloto. Como em qualquer processo de recuperação, manter-se confiante é imprescindível.
Agora, a recuperação do piloto está nas mãos de Riccardo Ceccarelli, dono da clínica especializada em treinamento esportivo Formula Medicine. E adivinha qual a maior preocupação do médico?
“A reconstrução dos nervos é a parte mais longa do processo, então é difícil entender os primeiros seis meses de como será a recuperação. Ele tem boa sensibilidade, mas não em todos os lugares. Mas a mão está lá e vamos recuperar a funcionalidade”, explicou.
Já abordamos aqui a importância das mãos do piloto, tanto em relação à força – diretamente ligada à capacidade dos nervos enviarem os impulsos – quanto da sensibilidade – novamente, função deles. Isso explica a preocupação e a cautela dos médicos. Três meses depois do acidente, recuperando-se a um milímetro por dia, ainda é leviano fazer previsões.