Julianne Cerasoli

Guia dos testes: como saber quem é quem na pré-temporada

A Mercedes andou mais de 6000km nos testes, seguida pela Toro Rosso – que tinha um motor de 2015 e, portanto, mais confiável. A Ferrari apareceu em terceiro, mas com quase 2000km a menos que a líder, sinal da tranquilidade dos alemães, que tiveram apenas uma quebra por toda a pré-temporada.

Tanto, que eles nem sentiram a necessidade de comprovar sua velocidade. Os melhores tempos no geral ficaram com a Ferrari, que optou por testar com os compostos mais macios mesmo andando em Barcelona, enquanto as Mercedes focaram em simulações intermináveis com os pneus médios – e ainda assim davam indícios de quão velozes seriam quando trocassem os compostos.

Vocês podem se perguntar qual o problema em insistir em testar com os macios, princi
palmente em um ano no qual um composto – o ultramacio – fazia sua estreia. A questão é que o asfalto em Montmeló é abrasivo, o traçado é recheado de curvas de média-alta e o tempo frio também dificulta a coleta de dados a serem ‘traduzidos’ para uma situação real. Os médios são os pneus daquele circuito e proveem uma plataforma bem mais segura para o restante do ano. A não ser que você queria fazer tempos para impressionar.

Mas a pré-temporada de 2016 também deu seus alarmes falsos, principalmente no caso da Haas, que passou o tempo todo andando pouco e frequentando as últimas colocações na tabela de tempos para surpreender e pontuar bem logo nas primeiras etapas.

A Red Bull também não demonstrou que viria a ser a segunda força logo de cara, mas acredita-se que isso tenha sido muito em função do fato da suspensão ter sido desenvolvida ao longo do ano. Foi ela que permitiu que o time voltasse a adotar níveis impressionantes de rake, pois seu sistema, que é diferente do usado pela Mercedes, ainda que com o mesmo princípio, trabalhar de forma a ‘estolar’ a traseira nas retas, tendo sido um recurso usado para diminuir o arrasto e compensar a menor potência do motor Renault.

Trata-se de um exemplo muito válido para um ano em que há uma extensa mudança de regras. A expectativa é de que os carros estejam em constante evolução ao longo da temporada e que os oito dias de Barcelona estejam longe de definir uma relação de forças estável para 2017.


Como nunca é demais relembrar, retomei o guia dos testes que publiquei ano passado com os principais pontos para ficar de olho nos próximos dias:

Confiabilidade: este é o sinal número um e deve ser mostrado logo de cara. A primeira prova pela qual os carros novos passam é a verificação de todos os sistemas. Logo, se algo falha, a equipe fica longas horas sem colocar o carro na pista. Problemas repetidos também são um forte sinal de alerta.

Tipo de trabalho feito na pista: cruzando o que vemos na pista com as informações passadas pelas equipes e as entrevistas concedidas pelos pilotos, dá para ter indicativos do tipo de trabalho que está sendo feito. E, geralmente, quanto mais cedo uma equipe passar da confiabilidade para a avaliação aerodinâmica e da avaliação aerodinâmica (feita normalmente com trechos de velocidade constante e sem dar importância ao tempo de volta) para a avaliação de diferentes acertos, melhor. Afinal, isso indica que o programa está correndo dentro do planejado e que não houve surpresas no caminho.

Simulações de corrida: quanto mais cedo uma equipe começar a simular corrida, melhor em termos de competitividade. E a maneira como ela faz isso, também. Comparar stints com o mesmo tipo de pneu e número de voltas semelhantes ajuda a entender quem está onde nas relações de força do grid, especialmente quando as equipes fazem simulações completas de corrida, sem reabastecimento – algo que, inclusive, só acontece em pré-temporada. Isso porque, devido às diferentes metodologias, quando são feitos stints menores, é bastante comum que haja discrepâncias de peso – e 10kg de combustível geram uma diferença de cerca de 0s3 por volta.

Tabela de tempos (só nos últimos dias): o procedimento normal das equipes é buscar comprovar a confiabilidade geral, cruzar os dados de aerodinâmica, colocar quilometragem e ver o que o carro pode fazer em corrida e, só depois, buscar tempos, quando o acerto começa a amadurecer. É possível, inclusive, que um time sequer faça uma simulação de classificação completa, unindo um setor aqui e outro ali para saber qual seu potencial. E também é possível que não seja usado o composto mais adequado. É o que se costuma chamar de esconder o jogo, mas que só o esconde aos olhares mais desatentos. Com apenas oito dias para passar por um longo checklist antes da Austrália, ninguém pode se dar ao luxo de perder tempo blefando.

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