
Lewis Hamilton terminou o GP do Brasil no segundo lugar e na bronca com a equipe Mercedes por não ter lhe dado ferramentas estratégicas para tentar bater o companheiro Nico Rosberg. Pela segunda corrida em sequência, o inglês sente que tem mais ritmo que o alemão, mas não consegue tentar sequer uma ultrapassagem, em filme que já vimos outras vezes com os papeis invertidos. Mas será que ele está certo em reclamar?
No caso do GP do Brasil, é difícil imaginar que ele conseguiria bater Rosberg com uma estratégia diferente. Sua única chance teria sido economizar pneus no segundo stint para pleitear ficar na pista por mais tempo e ter a chance de colocar os pneus macios no final. Porém, querendo mostrar à equipe que tinha ritmo, ficou colado em Rosberg e destruiu sua borracha. A exemplo do que ocorrera no México, o timing das paradas do próprio alemão foi determinado pela degradação dos Pirelli de seu companheiro.
Para nós, foram divertidas as ocasiões em que a Mercedes permitiu, logo no início de seu domínio, que o piloto que vinha em segundo tivesse uma chance, geralmente pela inversão de compostos no último stint. A épica briga do Bahrein, por exemplo, foi um destes casos. Porém, muita coisa mudou desde então.
As táticas passaram a ser idênticas a partir de uma polêmica na Hungria, quando Hamilton, que largara no fim do pelotão por um problema na classificação, acabou tendo uma estratégia melhor e terminou na frente. Durante a prova, o inglês se encontrou com o alemão e negou as ordens para deixar o companheiro passar, o que seria bom para a estratégia de Nico, mas não de Lewis. Para evitar mais complicações do tipo, a farra acabou.
Além disso, a relutância em fomentar a briga interna tem a ver com o crescimento da Ferrari. No GP da Espanha, outro exemplo em que foi dada a Rosberg a chance de contar com pneus macios para atacar Hamilton, o terceiro colocado, Daniel Ricciardo, chegou a quase 50s de distância. No Brasil, Sebastian Vettel estava a 15s.
E era justamente da Ferrari que o time teve de se defender. A grande expectativa antes da prova era de que o time italiano tentasse uma tática distinta para bater as Mercedes. Portanto, sabendo que tinham ritmo melhor, quando Vettel parou na volta 32 e colocou pneus macios, indicando que iria a três paradas, os alemães logo responderam, copiando a tática. De fato, ainda que a Ferrari ainda não consiga brigar de igual para igual com a Mercedes, eles já começam a pautar as estratégias do rivais – e, por que não, dar um bom motivo para congelá-las.
Falando em ritmo de corrida, o GP do Brasil deve ter gerado preocupações na Williams. O time, que chegou a 41s das Mercedes ano passado, com Massa em terceiro, levou uma volta com ambos os carros, o que significa mais de 73s. No caso doo brasileiro, as dificuldades com o equilíbrio do carro foram tantas que ele sequer conseguiu superar a Red Bull de Kvyat, mesmo tentando o undercut no meio da prova.
A tentativa, curiosamente, acabou ajudando a Force India a selar o quinto lugar entre os construtores, praticamente garantindo o sexto lugar de Nico Hulkenberg na prova. Isso porque a opção da Red Bull era esticar ao máximo o segundo stint de Kvyat para se aproveitar do fato de que a Force India tinha arriscado ao chamar Hulk aos boxes logo na volta nove. Mas o russo teve de responder à parada de Massa e acabou não conseguindo chegar no alemão.
Voltando ao caso Mercedes, aparentemente sem chance de volta aos dias em que as estratégias diferentes eram aprovadas internamente, resta a Hamilton abaixar a cabeça e trabalhar para melhorar em classificação. Afinal, o dono de 11 poles na temporada não pode esquecer de que já foi ‘protegido’ em várias provas justamente devido ao congelamento das táticas da Mercedes.