Julianne Cerasoli

Hamilton versão (quase) 3.0

Motor Racing - Formula One World Championship - United States Grand Prix - Race Day - Austin, USA

Quem assistiu ao GP da China de 2007, ou ao GP do Japão de 2008, ou mesmo ao GP da Itália de 2010, diria que todo cuidado é pouco ao encher a bola de Lewis Hamilton. Afinal, não foi uma ou duas vezes na carreira que o piloto colocou tudo a perder com julgamentos duvidosos. Mas um erro maior que os cometidos pelo inglês nas provas citadas acima seria o de não reconhecer o amadurecimento daquele que sempre foi, desde aquela ultrapassagem por fora na largada do GP da Austrália de 2007, um dos maiores talentos naturais do grid.

O excesso de agressividade e a maior propensão ao erro são características que marcaram os primeiros anos da carreira de Hamilton tanto quanto seu arrojo, mas têm aparecido com menos frequência de 2012 para cá.

Mais do que isso: o agressivo piloto que pegava pelo pescoço as McLaren carregadas de aerodinâmica a com pneus “longa vida” se tornou o rei do lift and coast, técnica de usar o freio motor para reduzir o consumo de combustível, e tem se mostrado mais inteligente em encontrar o limite dos pneus do que o companheiro Nico Rosberg.

Uma explicação que engloba ambos os aspectos é o fato do inglês se sentir mais à vontade com o equilíbrio de freios sendo jogado mais para os pneus traseiros do que os dianteiros, diferentemente do alemão. Feliz em ter um carro mais nervoso na entrada da curva, ele consegue carregar mais velocidade e precisa de menos reaceleração. Com isso, na mesma tacada, economiza combustível e pneus especialmente em pistas nas quais a degradação é longitudinal, e não por força lateral (aquelas com curvas em que o carro escorrega de lado).

O curioso é que esse “novo” Hamilton agregou qualidades, pois continua sendo aquele que freia por último, fazendo ultrapassagens de muito longe – ou a manobra em cima de Rosberg nos EUA não lembrou aquela sobre Kimi Raikkonen no GP da Itália de 2007? – ao mesmo tempo em que o freio eletrônico e a maior solicitação do KERS dificultaram a vida de alguns pilotos.

É verdade que, nas classificações, Hamilton ficou devendo em relação a Rosberg na temporada, resultado, segundo os engenheiros da equipe, da abordagem mais científica do alemão no acerto fino do carro. Porém, como o comportamento do carro vai se alterando ao longo de uma corrida, diferentemente do que acontece em classificação, o poder de adaptação maior joga a favor de Hamilton.

Não vamos cair na armadilha que “vitimou” muitos ao atribuir poderes sobrenaturais a Sebastian Vettel pelo domínio do alemão. Esse Hamilton em grande forma que estamos vendo tem um belo carro nas mãos. O motor Mercedes é o que menos consome; o carro é o mais equilibrado e, por isso, é mais fácil gerir os pneus; o sistema de freio dos alemães é superior e mais previsível. Porém, independentemente do que acontecer em Abu Dhabi, o hoje quase trintão Lewis já terá deixado para trás de uma vez por todas, com performances como na Hungria ou no Bahrein, a máxima de que só sabe acelerar.

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