O acidente improvável e os nove meses em que permaneceu no hospital após o acidente no GP do Japão de 2014 – por si só um show de irresponsabilidades sobre as quais comentei aqui e aqui – são uma triste metáfora da trajetória de luta de um menino de classe média francês, cheio de talento, mas que parecia sempre estar na hora e lugar errados. Jules Bianchi é daqueles pilotos que conquistou respeito no paddock da Fórmula 1 sem ter conquistado um pódio sequer e ficará lembrado por um feito que impressiona até mesmo seus colegas.
Lembro da mudança de semblante de pilotos mais próximos a Bianchi quando os questionei, em Mônaco, sobre o que representou aquele nono lugar no GP do ano anterior, com uma Marussia, e após ser punido em duas oportunidades durante a prova. “Quando você senta em um carro que não é competitivo e faz isso é quase um milagre”, disse Fernando Alonso.
Pastor Maldonado até tinha dificuldades em conjugar os verbos para falar do amigo. “Nós éramos… nos fomos muito próximos – não apenas na Fórmula 1, mas desde as categorias de base. Temos o mesmo empresário, treinamos muitos anos juntos na Itália. Eu era muito amigo dele. Eu sou muito amigo dele.”
Mas a carreira de Bianchi não é só Mônaco/2014. Emulando seu tio, que chegou à Fórmula 1 em 1968 e chegou a vencer as 24 Horas de Le Mans antes de morrer em um treino, começou no kart tão logo completou cinco anos. Após ser campeão do WSK International Series, graduou-se para os monopostos, nos quais teve rápida ascensão: campeão da Fórmula Renault francesa 2.0 no primeiro ano, vencedor do tradicional Masters de F-3 no segundo e dominador da F-3 Euroseries no terceiro.
Logo, o francês chamou a atenção da Ferrari e passou a fazer, por intermédio do empresário, Nicolas Todt, parte da academia de pilotos do time italiano. Seu destino estaria traçado rumo ao posto de titular em Maranello?
Mas a estrada foi dura. O título da GP2 virou quase uma obrigação, mas entre quebras, azares e erros, ficou pelo caminho nas duas tentativas. Ao mesmo tempo, surgia a oportundiade de testar com a Force India. A estreia na Fórmula 1 se aproximava no time indiano, mas foi dada a preferência à experiência de Adrian Sutil. Coube a Bianchi, portanto, uma vaga na nanica Marussia, cliente da Ferrari.
Lá, Bianchi fez bonito, ficando consistentemente à frente das Caterham, mais fortes, e superando com folga o então companheiro, Max Chilton: em 2013, fez 17 a 1 em classificações, com diferença média de 0s585. Na segunda temporada ao lado do britânico, fez 13 a 3, mas com vantagem média maior, de 0s685.
Quando sentou no carro para largar em Suzuka, Bianchi sabia que estaria fazendo uma de suas últimas corridas na Marussia, pois estava acertado com a Sauber para o ano seguinte. Continuaria com um carro limitado por pelo menos mais um ano e, quem sabe, estaria sendo cotado agora para a vaga de Kimi Raikkonen na Ferrari. Mais uma daquelas trajetórias que só podem ficar na imaginação.
