Julianne Cerasoli

Mais confusão no desenvolvimento de motores

Motor Racing - Formula One Testing - Day 4 - Jerez, Spain

A questão do desenvolvimento de motores ao longo da temporada ainda não teve seu último capítulo. Depois da FIA ter reconhecido uma brecha encontrada pela Ferrari e liberado os fabricantes de uma data de homologação que simplesmente não estava explicitada no regulamento de 2015 (o contrário do que acontecera em 2014), a Honda continua lutando para ter mais direitos mesmo estreando sua unidade de potência nesta temporada.

A questão é mais complexa do que eu havia inicialmente exposto no blog. Vamos ao que está acertado até agora:
O regulamento prevê que cada fabricante use até 32 tokens para alterar peças da unidade de potência. O token é uma espécie de ficha, dando pesos diferentes a mudanças em cada parte do motor – veja quais os pesos na página 89 do regulamento técnico. A unidade de potência é formada, no total, por 66 tokens, ou seja, em 2015, 48% do motor pode ser alterado.

O que será modificado e quando isso vai acontecer são decisões que cada fabricante deve tomar dependendo de sua estratégia. Nada impede que, por exemplo, a Mercedes chegue a Melbourne tendo usado 20 fichas e deixando as 12 restantes para o decorrer da temporada, e a Ferrari praticamente zere as fichas disponíveis.

Isso tudo sempre lembrando que cada piloto tem direito a apenas quatro unidades de potência durante o ano.

É claro que nenhum fornecedor quer entregar quantos tokens pretende usar até a Austrália. A Ferrari já avisou que só quer “gastar poucos antes do início da temporada para manter uma oportunidade significativa de desenvolvimento ao longo do ano.” A Renault diz ter “usado a maioria dos tokens para a primeira corrida, então o uso no decorrer da temporada será modesto.”

A Mercedes, por sua vez, está escondendo o jogo sobre qual estratégia utilizará. O caminho mais óbvio para quem dominou 2014 seria economizar tokens no início e ir usando o restante à medida que o campeonato avança, dando chance de testar melhor o que for alterado. Afinal, como salientou Rob White, da Renault, “se introduzir as mudanças no início da temporada, a tecnologia estará mais imatura, mas pode dar mais performance relativa, enquanto guardar para depois assegura que a novidade será mais testada, mas o impacto na performance é potencialmente menor.” Porém, a permissão concedida à Honda pode alterar o jogo.

O caso Honda

Inicialmente, a Honda, por estrear neste ano, não teria direito a usar nenhum dos 32 tokens. Após os japoneses reclamarem, a FIA abriu uma brecha: chegando na Austrália, tiraria-se uma média dos tokens ainda não utilizados pelos três fabricantes (ou seja, o que seria atualizado ao longo do ano) e esse seria o número ao qual a Honda teria direito.

De acordo com um dos jornalistas mais bem informados do paddock, o alemão Michael Schmidt, a expectativa é de que a Ferrari use 20 tokens até Melbourne (deixando 12 para o restante do ano), a Renault use 25 (faltariam 7) e a Mercedes, 26 (faltariam 6).
Somando e dividindo tudo, a Honda teria direito a 8 tokens (lembrando que, na necessidade de arredondar, sempre será para baixo, mesmo se o resultado for 7,9, por exemplo).

Os japoneses não estão satisfeitos com a resolução e querem, pelo menos, o mesmo número de tokens do rival que tiver usado menos até a Austrália (no exemplo acima, seriam os 12 da Ferrari). E, é claro, os italianos serão os primeiros a resistir. Mais uma para a série “pra quê facilitar?” dos gestores da Fórmula 1.

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