
Nos textos em que analiso a estratégia das provas, a Pirelli, como era de se esperar, sempre tem papel de destaque. Na abertura da temporada 2015, contudo, esse papel foi negativo. Um pneu duro demais acabou engessando a corrida.
Nos últimos três anos, a Pirelli havia levado a Melbourne os mesmos compostos médio e macio de 2015 em duas oportunidades, e médio e supermacio em 2013. E o número de paradas dos primeiros colocados se alternou entre duas e três (especialmente em 2013). Na prova do último domingo, por outro lado, ninguém teve problemas para completar as 58 voltas com apenas dois jogos de pneu.
Isso mostra que a nova construção – os compostos, em si, não foram alterados de maneira significativa – tornou o pneu mais resistente. E, para a Pirelli cumprir o que ela foi contratada para fazer (corridas mais movimentadas, com dois a três pit stops) vai ter de adotar escolhas de compostos mais ousadas.
Pneus mais resistentes também inibem estratégias arriscadas no sentido de parar mais que os adversários, pois isso obriga o piloto a fazer ultrapassagens, que ficam mais difíceis quando há pouca degradação. Essa falta de ultrapassagens, aliás, foi uma marca forte do GP da Austrália: foram apenas 10, muito menos que as 35 de 2014, ano que teve, em média, 43,5 manobras por prova.
O erro da Williams
Esses pneus mais resistentes também explicam onde foi o erro de leitura da Williams na estratégia de Felipe Massa.
Quando o brasileiro entrou na janela de pitstop, podendo colocar os médios e ir até o final, a equipe tinha o seguinte cenário: Sebastian Vettel perto o bastante para tentar o undercut (parar antes e usar o rendimento do pneu novo para ultrapassar) e Daniel Ricciardo perto demais (a menos de 23s de Massa, o que significava que o brasileiro voltaria atrás dele quando parasse). Temendo que a Ferrari mexesse as peças primeiro e chamasse Vettel para o box, a Williams reagiu assumindo o risco de que Massa perderia tempo.
Porém, o que era um risco se tornou quase um suicídio não apenas por Massa ter voltado atrás de Ricciardo, que andava 1s mais lento, mas também porque Vettel tinha economizado pneus e começara a voar. E é essa combinação que explica por que o alemão apareceu na frente após fazer sua parada, três voltas depois de Massa.
A questão é que a equipe deveria ter previsto que isso aconteceria. Primeiro: Vettel não teria por que tentar o undercut, já que a dificuldade de aquecimento do pneu médio não garantia que o piloto que voltasse dos boxes fosse mais rápido a ponto de ultrapassar o rival que vinha à frente – não por acaso, a tática não foi tentada por ninguém. Segundo: naquele ponto da prova, já tinha ficado claro que as ultrapassagens seriam raras, por conta do pneu duro demais. Ou seja, Massa fatalmente perderia tempo atrás de Ricciardo, mesmo sendo mais rápido.
Não que fosse uma briga fácil de ganhar, pois a Ferrari demonstrou ter um ritmo de corrida ligeiramente superior durante todo o final de semana. E a facilidade com que Vettel abriu logo no começo do segundo stint demonstra que os italianos têm, de fato, um carro mais equilibrado – ainda mais porque foi uma tendência mais forte com o pneu médio, menos aderente, que ‘entrega’ carros menos eficientes com mais clareza do que o macio. Porém, é mais uma tática que vai para a coleção de escolhas conservadoras e enferrujadas da Williams.