Julianne Cerasoli

Medidas de segurança não encaram problemas nos pit stops

A decisão da FOM de banir repórteres e cinegrafistas do pitlane após o acidente com o câmera da empresa tem tanta eficácia quanto a regulamentação divulgada no dia anterior, pela FIA, aumentando o número de pessoas que são obrigadas a usar proteção na cabeça e diminuindo o limite de velocidade: nenhuma.

Afinal, o problema não é quem tem acesso a esta área ou que tipo de proteção eles usam, mas sim os mecanismos falhos das equipes, que permitem a liberação de um carro mesmo com a roda ainda solta.

Há alguns meses publiquei um post sobre como são feitos os pit stops hoje em dia. Resumidamente, o que se busca nos últimos anos, com o fim do reabastecimento e a necessidade de paradas cada vez mais rápidas, é minimizar a necessidade do mecânico desviar a atenção do que está fazendo. Por exemplo, o mecânico que usa a pistola não levanta mais a mão para indicar que terminou, apenas levanta um botão na própria pistola. Isso emite um sinal verde para quem segura os macacos que, por sua vez, também solta seu botão e outro sinal é emitido para o “semáforo” que o piloto tem a sua frente.

Como ocorreu com a Red Bull no domingo, o botão escapou do dedo do primeiro mecânico, resultando numa reação em cadeia. Um erro humano que poderia ser evitado com um sistema de segurança. Porém, enquanto as equipes se safarem com multas de episódios como este, como tem acontecido, não haverá interesse em perder alguns décimos a mais para tornar o pit stop “à prova de roda solta.”

Outro problema que deveria ser tratado com muito mais rigor do que tem acontecido é o chamado “unsafe release”, que hoje também resulta mais em multas do que em punições durante a prova. A regra diz que “o carro deve ser liberado apenas quando for seguro”, o que abre a porta para interpretações. Talvez colocar uma medida (por exemplo, “o carro só pode ser liberado quando não tiver um competidor a menos de 20m no pitlane”) obrigaria as equipes a terem mais cuidado.

O pior é que as medidas tomadas no calor do momento nesta semana, além de não entrarem no cerne da questão, ainda causaram um prejuízo importante para o trabalho de profissionais. Os repórteres e cinegrafistas já não podiam entrar no pitlane durante a classificação e a corrida – apenas os cinegrafistas da FOM podem circular nestes momentos que, por serem os mais competitivos, são os que apresentam real perigo – mas agora também estão banidos dos treinos livres. Não é nossa realidade no Brasil, mas os treinos livres com acesso a entrevistas e filmagens dentro dos boxes é parte importante da transmissão principalmente dos europeus. As informações colhidas dentro da ação são de grande valia e justificam grande parte do investimento feito por estas emissoras.

Passando por cinco continentes e 19 países ao longo do ano, a Fórmula 1 não é barata para nenhum veículo de comunicação, e muito menos para quem precisa montar uma estrutura, como as emissoras de TV. Apesar de ser um esporte relativamente aberto à imprensa, principalmente se levarmos em consideração a possibilidade de acesso aos personagens instantes antes de entrarem nos carros– imagine invadir o vestiário e entrevistas jogadores antes de uma final de Copa? – a categoria está cada vez se fechando mais. Durante a corrida já vale mais ficar ligado no twitter do que buscar informações nas fontes dentro das equipes, o que desvaloriza o profissional que está presente no evento. E essa restrição na circulação no pitlane é mais um passo nesse sentido.

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