
Lembro que há algumas semanas escrevi que esse campeonato me lembrava 2010, quando tivemos aquela sequência de corridas mornas na Espanha, Mônaco e Canadá e várias reviravoltas no campeonato. Depois de quatro etapas em cinco semanas, a situação mudou de figura – várias vezes, inclusive – como em outro campeonato, de 2008.
A luta é tão apertada entre Mercedes e Ferrari, Hamilton e Vettel, que ambos os lados estão muito propensos a erros, como vimos no caso do alemão neste domingo, e falhas, como ocorreu com o inglês no dia anterior. E as reações fortes de ambos os pilotos ao lado de seus carros parados na área de escape do circuito de Hockenheim em dias distintos só ilustra isso perfeitamente.
Era para ser uma vitória fácil para Vettel, mesmo que com seus dramas. O alemão se manteve na ponta após conquistar uma pole que deixou a Mercedes preocupada com a evolução do motor da Ferrari, e não parecia ter adversários, ainda que a caminhada até a volta 52 e os 8s de vantagem para Valtteri Bottas não tenha sido 100% tranquila.
A Ferrari dividira a estratégia de seus pilotos, colocando Kimi Raikkonen na tática de duas paradas para proteger Vettel de Lewis Hamilton, que já tinha chegado ao quinto lugar na volta 14 após forte recuperação. Com isso, quando Vettel fez sua parada, voltou atrás do finlandês, pois o ritmo dos dois, com pneus macios, era melhor. E parece que a Ferrari, pelo menos desta vez, esqueceu de ensaiar sua inversão de posições, cabível quando se tem um deles lutando pelo campeonato e ainda por cima com estratégia diversa.
A demora em fazer a inversão pode ter custado caro. É claro que a escapada de Vettel foi um erro banal dele, “uma maneira bem pouco espetacular de terminar uma corrida”, como ele mesmo definiu, mas é de se imaginar que o desgaste inicial do pneu no ar turbulento do companheiro não contribuiu negativamente.
Nesse momento, Hamilton vinha andando muito forte com o pneu ultramacio em quarto, e via na chuva sua grande oportunidade. “Meu coração acelerou quando viu os pingos, sabia que seria minha chance”, disse o inglês em entrevista emocionada no final da prova. Mal sabia ele que não teria de fazer mais nenhuma ultrapassagem para vencer: Vettel não só saiu de seu caminho como causou um Safety Car que deixaria Bottas e Raikkonen muito expostos, uma vez que ambos estavam com pneus macios já desgastados, que perderiam muita temperatura com o ritmo mais lento. Eles tinham que parar, Hamilton não – embora os estrategistas da Mercedes por pouco não tenham comido bola mais uma vez, chamando o inglês, mas logo depois desistindo. A manobra em si – cruzar a linha do pitlane – não é legal, mas os comissários determinaram que o período de SC e o fato de Hamilton ter voltado em segurança à pista foram atenuantes, e o consideraram culpado sem puni-lo com perda de tempo, ou seja, dando-lhe a reprimenda. Caso tivessem optado pela pena seguinte, de 5s, Hamilton teria perdido a prova por 0s5 para seu companheiro.
Dito isso, Bottas mais uma vez tem motivos para ficar no “e se”, depois de um pitstop lentíssimo que, pelo menos, não o fez perder a posição para Raikkonen.
Se dentro da pista os erros se somam a cada corrida, exatamente como naquele 2008, fora dela Hamilton e Vettel também travam uma batalha para demonstrar confiança. O alemão saiu da corrida caseira garantindo que não perderia o sono pela batida e dizendo-se contente com o ritmo demonstrado pela Ferrari – e ele tem lá seus motivos – enquanto Hamilton deu seu recado para quem chegou a questionar após a classificação que ele estava perdendo a cabeça: “Para quem acha isso… não estou cometendo erros. Tenho o foco total no meu sonho e, por mais difícil que ele seja, tenho que dar a volta por cima. Quando sentei do lado do meu carro no sábado, não estava chorando, mas sim pensando ‘amanhã é a oportunidade de fazer algo grandioso’.” E fez.