Julianne Cerasoli

Nada é por acaso no sucesso da Mercedes

Motor Racing - Formula One World Championship - Malaysian Grand Prix - Practice Day - Sepang, Malaysia

Fazia frio no verão belga, mas o clima no paddock após a corrida de Spa não poderia estar mais quente: a direção da Mercedes passava por sua maior crise. Nico Rosberg forçara uma ultrapassagem ainda na segunda volta em cima de Lewis Hamilton e arruinara a corrida do companheiro. E uma vitória certa das Flechas de Prata fora jogada no lixo.

O sempre espitiruoso Toto Wolff chega em um motorhome lotado de jornalistas para dar sua tradicional entrevista pós-prova. Mal senta e, com um sorriso, levanta a mão para pedir a palavra. “Vou fazer a primeira pergunta: o que Niki disse?”

Se a crítica que se fazia no início de 2013 à Mercedes era o excesso de cacique para pouco índio, hoje as peças parecem ter se encaixado. Enquanto os principais atores técnicos, um vindo da Ferrari, Aldo Costa, e outro da McLaren, Paddy Lowe, trabalham silenciosos na máquina, a curiosa dupla do homem de negócios Wolff e o impagável Lauda dão seu show e controlam ao mesmo tempo com charme e pulso firme imprensa e pilotos.

Mas para entender o sucesso da equipe, é preciso voltar no tempo. O acaso não costuma dar frutos na Fórmula 1. Mas, sim, um projeto a longo prazo, que não deixe se abalar logo no primeiro desafio que aparece.

A Mercedes comprou a Brawn no final de 2009. Apesar de ser uma equipe com um DNA relativamente bom – com lampejos em 2003 como BAR e 2006 como Honda, sem contar seu passado como a Tyrrell campeã mundial dos anos 1970 – a perda repentina do apoio dos japoneses ao final de 2008 e a solução aos trancos e barrancos de Ross Brawn para salvar o time, que foi campeão no ano seguinte com uma estrutura bastante enxuta, demandava um trabalho a longo prazo.

E quem ficou a cargo disso? O próprio Brawn. Mais do que Wolff, Lauda, Costa ou Lowe, muito do sucesso da Mercedes tem a ver com ele. Assim como a Benetton no início dos 1990, a Ferrari nos 2000 e a própria Brawn, ele dirigiu a reestruturação do time, melhorando as instalações, colocando as pessoas certas para fazer as funções certas. E construiu as fundações para que a Mercedes pudesse aproveitar uma revolução nas regras para se tornar dominante.

E foi uma revolução praticamente feita`sob medida para os alemães se aproveitarem. A esperta aproximação entre a fábrica de motores em Brixworth e Brackley fez com que a unidade de potência e o carro fossem pensados de maneira integrada, e fermentou o caminho para o título. O único construtor que poderia ameaçá-los seria a Ferrari, mas sem um projeto a longo prazo em Maranello, o caminho ficou livre para os alemães.

A cereja no bolo foram os pilotos, ambos com a medida certa de experiência e fome de títulos. E, enquanto a Mercedes não tem nenhum indício de que a temporada de 2014 foi exceção, também não podemos reclamar de ter, mesmo com um carro dominante, um campeonato como este.

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