
“Creio que a Ferrari e Fernando [Alonso] formam uma máquina implacável. Não conheço Felipe muito bem, mas é um piloto muito rápido e uma pessoa muito intensa. É muito difícil, e poderíamos perguntar isso para Rubens [Barrichello], existir em uma máquina como aquela mantendo seu nível de autoconfiança, porque ela é muito focada em seu companheiro. Essa é a desvantagem [de ter um primeiro piloto].”
A discussão é antiga e não parece ter uma solução clara. Afinal, o que é mais eficiente: dar condições completamente iguais aos companheiros dentro de uma equipe ou jogar sempre em duas frentes independentes?
Whitmarsh, claro, já viu o outro lado da moeda. Afinal, perdeu junto da McLaren um campeonato ao não assumir uma posição clara. Conhece de perto a filosofia de Alonso e admite “simpatizar” com a lógica cartesiana do espanhol de que, priorizando um piloto e evitando que se dividam os pontos dentro da equipe, aumenta-se matematicamente as chances no Mundial de Pilotos.
“Sempre tivemos a filosofia de tratar ambos os pilotos de forma igual, de deixar que disputem na pista. A filosofia de Fernando, a qual entendo e com a qual simpatizo é de que ‘se vocês colocarem todo o peso em mim, vou vencer o campeonato’. E, de fato, se tivéssemos colocado todo o peso em cima dele em 2007 ele teria vencido o campeonato. O mesmo aconteceria se tivéssemos agido assim com Lewis. Fomos justos e igualitários e não me arrependo.”
Olhando por essa prisma mais lógica, parece óbvio que a estrutura de 1º e 2º pilotos definidos é a mais eficaz. Porém, a história mostra que as variáveis são muitas. Primeiramente, a própria McLaren pode se gabar de nos ter proporcionado, com sua filosofia – que vai e volta, é verdade, que o digam Coulthard, Montoya e Kovalainen, para ficar em exemplos mais recentes – os incríveis dois anos de guerra entre Senna e Prost. Porém, devemos lembrar que a supremacia daqueles carros era tamanha que, mesmo dividindo pontos entre si, os pilotos nunca foram ameaçados pelos demais.
Em condições especiais como esta, de tamanha superioridade, ter um segundo piloto perde totalmente o sentido. E por isso comportamentos como o da Ferrari em 2002, sabendo que tinha um carro dominante e que o campeonato não corrida qualquer risco, são difíceis de entender.
Mas há momentos em que colocar suas fichas em apenas um piloto é positivo. Em uma disputa apertada, quando não se tem um carro dominante, é óbvia a ajuda de ter sempre o mesmo com os maiores pontos – e, em uma condição ideal, outro colocando-se entre o tal primeiro piloto e seus rivais. O problema é que esse cenário é difícil de obter-se. Afinal, pilotos são serem humanos e cada um reage de uma maneira diferente a essa espécie de rejeição.
Tomemos como exemplo Mark Webber e Felipe Massa. O primeiro, quando se sentiu deixado para trás em Silverstone 2010, venceu a corrida e soltou a famosa “nada mal para um segundo piloto” no rádio. O segundo calou-se diante das ordens de equipe e lembrou que fora beneficiado por elas no passado. Ambos tinham uma história longa na Red Bull e Ferrari, respectivamente, quando passaram por estas situações e viram pilotos virtuosos chegando e roubando seu espaço.
Sebastian Vettel e Fernando Alonso também são diferentes. O alemão brinca externamente e é duro internamente na equipe, enquanto o espanhol é político e intransigente em suas posições. A Red Bull, e suas raízes britânicas, prefere manter as aparências, enquanto a Ferrari se coloca acima de tudo. Um caldeirão de diferenças que leva a dois resultados completamente distintos: se por um lado Webber chega a tirar pontos de Vettel, Massa dificilmente age de forma efetiva como escudeiro de Alonso.
Esse é o grande risco da filosofia de priorizar um líder: fazer com que seu piloto se sinta tão excluído da equipe que ele mesmo se anule. Dessa maneira, ainda que o primeiro piloto continue marcando seus pontos sem ser incomodado internamente, não pode contar com a ajuda do companheiro, assim como a equipe dá um tiro no pé no Mundial de Construtores. Como sempre no mundo da F-1, é uma complicada questão de comprometimento. E de aparência.