Um carro de F1 pode levar menos de 5s para chegar a 160 km/h e desacelerar a 0 novamente. A aderência é tanta que o piloto sofre cargas laterais de até 6G, ou seja, uma pressão seis vezes maior que seu próprio peso. Em lugares como Malásia e Cingapura, a temperatura no cockpit alcança 50ºC, e os pilotos chegam a perder 3 litros de água durante uma prova.
É, inegavelmente, um esforço físico fora do comum. E quando somamos tudo isso a tempos de volta praticamente idênticos, por quase 2h, e decisões estratégicas, tanto de dosagem do equipamento, quanto de ultrapassagens, entendemos por que o médico Riccardo Ceccarelli, grande especialista em treinamento de pilotos diz que é o cérebro o ‘músculo’ mais importante de um piloto. “Eles têm algo diferente no cérebro, porque têm que ser rápidos, inteligentes e capazes de reagir e tomar decisões. Quando comecei a trabalhar com pilotos, tinha a mesma idade deles, e fiquei impressionado com a capacidade que eles têm de tomar decisões do dia-a-dia. Certamente têm um cérebro mais rápido que o meu”.
E hoje em dia, com o número de variáveis que o piloto controla no volante – e no ajuste de freios – ao mesmo tempo em que houve um considerável aumento das forças G, pode-se dizer que a inteligência é mais importante que antes. “Todos os pilotos têm talento. Mas, desde os anos 60, há uma evolução: antes, correr na F1 tinha mais a ver com talento nato. Com a eletrônica, este esporte se transformou em algo mais ‘cerebral’, agora são exigidos mais dotes de atenção e concentração”, salienta o italiano, com mais de 20 anos de experiência no esporte e mais de 600 pilotos analisados, entre eles Massa, Alonso e Kubica.
Nesse vídeo da TV5, vemos Antonio Lobato, narrador espanhol, passando pelos testes necessários para guiar um F1. Alguns deles trabalham os reflexos:
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É claro que, mantendo o físico em dia, é possível focar-se mais facilmente na corrida em si, e não do pescoço que dói ou na estafa causada pelo calor. Ficar em forma, contudo, todos fazem. “Quando você chega a um ponto em que seu coração trabalha bem e você é suficientemente forte para que a pilotagem seja fácil, falta a mente.”
Ceccarelli exemplifica com os dados dos batimentos cardíacos de um piloto – que diz ser um dos melhores do mundo, sem citar nomes – durante uma corrida: 184bpm de média e 201 de pico (quem já tentou descobrir sua frequência cardíaca máxima, provavelmente usou a conta 220 – idade… provavelmente isto não quer dizer nada dentro de um cockpit). Tudo isso mantendo a capacidade de processamento de informações em dia, para que não cometa erros. “Um piloto deve estar em forma para aguentar a corrida sem fadiga. Porém, para melhorar o rendimento, precisa fazer com que seu cérebro funcione mais rápido, e por mais tempo.”
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É possível treinar isso também. Kubica, por exemplo, acertou as 100 tentativas em 1min num exercício em que aparece uma palavra colorida e você tem que checar se palavra e cor coincidem – para piorar, os botões de “verdadeiro” e “falso” trocam de lugar. O polonês é capaz de acertar 300 sem errar uma sequer. “Isso indica não apenas uma imensa concentração, como também um cérebro muito veloz para processar informação. É possível treinar o piloto, por meio de exercícios como esses, a usar menos energia para ter essa mesma velocidade de raciocínio, por meio da repetição.” Os exercícios vão de testes de reação simples – importantes na largada e ao sair dos pits – a provas de memória visual, concentração e estresse.
Isso leva ao que Ross Brawn chama de “Spare Brain Capacity”, ou a capacidade de pilotar usando o mínimo possível do cérebro. Quanto melhor o piloto, maior o espaço “livre” que ele tem no cérebro enquanto pilota. Isso lhe confere uma grande capacidade de pensar durante as corridas. E não há nada mais valioso que um piloto que pense.