
“Deixe-me em paz, eu sei o que estou fazendo”. A frase é do penúltimo GP de 2012, quando Kimi Raikkonen caminhava para vencer em Abu Dhabi. Com a Lotus. No ano seguinte, com o regulamento razoavelmente estável, o time teria mais uma vitória e outros 13 pódios, chegando no quarto lugar, atrás das donas dos três grandes orçamentos da F-1 hoje: Red Bull, Mercedes e Ferrari.
Dois anos depois, a equipe mais camaleã da categoria mudará de cor novamente e se tornará o terceiro time de fábrica do grid – ou quarta, se considerarmos a parceria exclusiva de McLaren e Honda. Mas tudo o que aconteceu nas últimas duas temporadas faz com que voltar ao patamar do pré-2014 dependa de muito mais do que de caminhões de dinheiro.
A nova equipe Renault deve se inspirar no trabalho da Mercedes para fazer o time de Enstone voltar a ser grande. Parece óbvio dizer isso, mas é algo que vai além do que o time alemão é hoje.
A Mercedes voltou à F-1 como equipe em 2010, comprando o espólio da Brawn. Tratava-se da campeã do ano anterior, mas que havia construído sua vantagem com um pulo de gato de um carro construído com orçamento quase irrestrito da Honda, mas que passou toda a temporada com uma estrutura bem mais enxuta do que os rivais após os japoneses abandonarem o barco.
A equipe que a Mercedes assumiu, portanto, tinha perdido peças importantes pelas limitações orçamentárias, não tinha a melhor das estruturas e levaria tempo para ser reerguida.
A Renault, por sua vez, retoma o time de Enstone em uma situação ainda pior: os franceses vão assumir uma empresa em frangalhos depois de três anos de dificuldades financeiras. Mesmo durante o bom ano de 2013, a então Lotus já sofria com a falta de dinheiro, que tirou profissionais importantes do time, algo simbolizado por James Allison, que viria a se tornar um dos pilares da reconstrução da Ferrari.
Em um mundo tão competitivo quanto a F-1, esse tipo de defasagem técnica costuma levar tempo para cicatrizar. A própria Mercedes só começou a demonstrar os primeiros sinais de que viria para ficar em sua quarta temporada. E, se lembrarmos que, mesmo nos anos do bicampeonato em 2005 e 2006, a presidência da montadora francesa reclamava da falta de retorno do esporte, fica claro o desafio que os homens e mulheres de Enstone têm pela frente para provar que merecem tanto crédito.
Por enquanto, os prognósticos não parecem muito animadores. No caso da Mercedes, a receita da transição foi adicionar à equipe liderada por Ross Brawn as peças que faltavam. Uma delas, inclusive, Michael Schumacher, conhecido como um trabalhador insaciável.
Na Renault, o nome do experiente (mas apenas nas categorias de base) Frederic Vasseur tem sido bastante cotado para liderar o projeto, com a expectativa de envolvimento direto de Alain Prost que, busca apagar a má impressão deixada nos tempos de chefe de equipe. Já a dupla de pilotos formada por Maldonado e Palmer é uma das mais fracas do grid. Junte-se a isso a falta de capacidade demonstrada pela divisão de motores em resolver seus problemas nos últimos dois anos e é difícil acreditar que eles realmente sabem o que estão fazendo.