
Um piloto não é grande até se tornar um campeão, mas as conquistas automaticamente fazem dele um grande? Em uma categoria na qual o piloto considerado pela maioria como o melhor da história tem menos da metade dos títulos e vitórias daquele que é o maior vencedor da história, parece que os números ficam em segundo plano.
Essa discussão de como valorar um piloto frente a outro vai e vem na história. Os mais antigos vão garantir que Fangio não era tão mais superior que o rival Stirling Moss que os 5 a 0 no placar de títulos sugerem. Outros vão lembrar de Clark e seus “apenas” dois títulos, consequência da morte prematura, mas que não o tiram de qualquer lista de top 10 que o valha.
O “rei” da controvérsia, é claro, é o dono de 99% das marcas de que se tem notícia na F-1. Mesmo com sete títulos no bolso, 91 vitórias e mais um sem-número de recordes, Michael Schumacher não é automaticamente alçado à condição de melhor de todos os tempos.
A justificativa para isso é que a maior parte das conquistas de Schumacher veio com um equipamento superior à concorrência. Mas ele não teve mérito em tirar a Ferrari do buraco e construir todo um time ao seu redor? Não vale nada maximizar suas chances a cada final de semana?
Agora temos Vettel. E a mesma questão. Os números do alemão nesta temporada remetem a Schumacher, assim como seu perfeccionismo, sua atenção aos detalhes, seu foco, a maneira com que faz a equipe jogar do seu lado. Não é difícil entender por que os que consideram Schumacher o melhor logo coloquem o alemão mais jovem no alto do pedestal, assim como aqueles que desprezam as marcas obtidas com um equipamento superior torçam o nariz para o piloto.
Por mais paradoxal que possa soar, ao contrário do campeão, cuja glória se contabiliza por meio de pontos, o grande piloto se mostra na adversidade. E isso números não podem quantificar.
Por isso um piloto que ganha tendo o melhor carro sempre gera desconfiança. Afinal, aparentemente é sua obrigação, principalmente em tempos em que o equipamento conta muito. É claro que há méritos em um domínio, e muitos. Afinal, um carro não é o melhor por sorte, não se adapta a cada pista por mágica. Nenhuma equipe ganha campeonatos errando constantemente na estratégia e nenhum piloto é campeão batendo a cada corrida. É preciso conquistar cada pole, construir cada vitória. Assim se conquista pontos e títulos.
Mas o grande piloto aparece naquele carro que está longe de ser perfeito, que teima em escapar, que não permite que ele, mesmo tirando cada gota na classificação, largue na ponta e tenha um domingo menos desafiante. É o carro que incita a erros que faz a fama de um piloto que, mesmo assim, não os comete.
Não dá para saber se Vettel está guiando mais que o carro, até pela temporada abaixo da crítica de sua única referência. Não dá para saber se ele é esse grande piloto na adversidade após construir a confiança que mostrou em 2011, em contraste ao errático 2010, até porque são apenas quatro temporadas e meia no bolso, sendo pouco mais da metade com o melhor carro nas mãos. Como colocar isso ao lado de 10 anos de altos e baixos, carros bons e ruins, de um Ayrton Senna ou até mesmo dos contemporâneos Fernando Alonso ou Jenson Button? Não dá, pelo menos por enquanto.
Há ainda outro ingrediente nesta história. Num passado não muito remoto, os campeões começavam em uma equipe pequena, ganhavam espaço com grandes apresentações em carros inferiores – mas ainda não eram considerados grandes, pois para isso é preciso provar que você consegue vencer com um carro inferior e tendo a pressão de fazê-lo – e depois de algum tempo de carreira eram alçados a um time grande, no qual se esperava sucesso imediato. Caso o carro falhasse, o candidato a grande tinha de provar que poderia fazer a diferença. Talvez não em termos de campeonato, uma vez que são poucos os exemplos de pilotos que foram campeões por mérito próprio sem que sua equipe também o fosse, mas deixando claro que as possibilidades estavam maximizadas.
Nos últimos anos, com as grandes empresas apadrinhando pilotos como o próprio Vettel e Lewis Hamilton, perdemos um pouco disso. Os campeões hoje não se fazem, são feitos, e depois, como o piloto da McLaren está descobrindo, são testados da maneira mais cruel quando o conto de fadas não sai como o planejado.
Por esses fatores que estão fora de seu alcance, Vettel pode ter chegado aos números impressionantes, aos títulos incontestáveis, mas ainda não aos grandes. Nada que algumas temporadas difíceis não resolvam.
Texto baseado em coluna publicada dia 22.10 no jornal Correio Popular