
Se não houvesse alguma reviravolta surpreendente, não seria uma decisão digna da temporada 2017. Lewis Hamilton até tentou ficar longe da briga entre Max Verstappen e Sebastian Vettel na primeira curva, mas ao ver o caminho praticamente aberto a sua frente não teve escolha e mergulhou para um espaço que logo ficaria pequeno demais. Já sem parte da asa dianteira, fora da trajetória e com pneus frios em uma pista naturalmente de baixa aderência, o alemão não conseguiu evitar o toque que, efetivamente, acabou com suas já mínimas chances de título.
Isso porque já não importava que Hamilton perderia um minuto em relação ao líder Verstappen só na primeira volta: Vettel tinha complicado demais a sua vida para conseguir a segunda colocação que lhe daria sobrevida no campeonato.
Após o drama inicial, os dois deram um show de resiliência. Foi incrível ver a preocupação de Hamilton durante toda a corrida e especialmente sua fantástica briga com Fernando Alonso nas voltas finais, quando ele mesmo adimitiu que arriscou demais – e sabe muito bem o porquê. Por todo o final de semana se falou de como o quarto título, pela maneira como foi conquistado, coloca Lewis em um novo patamar, e chegara a hora de mostrar isso.
Vettel, por sua vez, sentiu o golpe da derrota como se tivesse perdido o título por um ponto na última corrida. Demorou para aparecer para as entrevistas e apareceu visivelmente abalado. E repetindo o quão duro foi cruzar a linha de chegada e saber que estava tudo acabado.
Até porque o alemão sabe que esse poderia ter sido seu penta, seu primeiro com a Ferrari que, no geral da temporada, foi um carro, se não ligeiramente melhor, certamente mais previsível. Porém, o que se sobressaiu foi a capacidade de reação da Mercedes, que por inúmeras vezes esteve completamente perdida em termos de acerto e encontrou seu caminho. E, quando teve vantagem clara, maximizou seu resultado, algo que a Scuderia fez na primeira parte do ano, mas não conseguiu manter até o final.
E pensar que o hoje rei da consistência Lewis Hamilton tentou entregar o título por tantas vezes em 2008 e perdeu uma chance real de título em 2010. É visível a evolução do piloto inglês, que certamente é o esportista mais importante de seu país na atualidade e rivaliza com Jim Clark (de maneira pouco justa, pela carreira curta do escocês) o papel de maior britânico de todos os tempos na F-1.
Até porque um piloto só veloz e agressivo jamais teria tantas vitórias em uma época de grande necessidade de gerenciamento de pneus, combustível, energia. Alguém que só sabe acelerar não seria tão bem avaliado pela maneira como acerta o carro. Um baladeiro incontrolável jamais conseguiria manter relações longevas com suas equipes.
É por esses detalhes sobre os quais ele não costuma falar muito que Hamilton hoje está no ápice da carreira. Ele prefere dizer que pilota com o coração. Mas o quanto de razão há no coração do mais novo integrante de um seletíssimo grupo dos tetracampeões.