Julianne Cerasoli

Os erros (da Mercedes) e os acertos (da Lotus) na Coreia

A F-1 nunca foi um one-man show. Não é, Ross?

Parece que as estratégias engessadas da Lotus definitivamente mudaram de endereço. E estão atormentando o “ex-gênio” Ross Brawn na Mercedes. A reação ao desgaste elevado dos pneus definiu o GP da Coreia – pelo menos do segundo para trás – e, assim como em Cingapura, o risco assumido por Raikkonen pagou dividendos.

Os treinos de sexta-feira mostravam que os pneus médios duravam cerca de 24 voltas, e os supermacios, a metade disso. Porém, com a chuva que caiu na noite anterior à prova, o circuito perdeu parte da borracha e vimos os primeiros pit stops no top 10 na volta 9. E Hamilton e Alonso, os primeiros a parar, não o fizeram para ultrapassar ninguém, e sim porque seu ritmo tinha despencado.

Isso gerou certo pânico nas equipes. As simulações mostraram que a estratégia de três paradas não era uma opção viável e eles tinham de fazer a tática de dois pits funcionar. Para isso, os stints seguintes tinham que ter por volta de 23 voltas. Ou seja, a meta das equipes passou a ser chegar ao menos até a volta 30 com os médios.

Mas uma coisa é o que a simulação diz, outra é a realidade da corrida. Se um piloto enfrenta tráfego, seus pneus vão acabar mais cedo. Estilos de pilotagem também influem muito, assim como o equilíbrio do carro. Ouvindo o feedback e vendo os tempos despencando, não há o que fazer: tem de parar e depois torcer para uma evolução de pista. Além disso, antecipando a parada é possível fazer o undercut (usar o ritmo do pneu novo para superar rivais) e sair do tráfego, aumentando a vida útil do próximo jogo de pneus.

Deve ter sido este o raciocínio da Lotus quando chamou Raikkonen aos boxes na volta 25. Ao fazer a volta mais rápida da prova até então em seu retorno à pista, superou Hulkenberg, Alonso, Hamilton e Rosberg numa tacada só: em um pit stop, foi de sétimo a terceiro. Sim, o finlandês teria de fazer 30 voltas com o pneu médio e, àquela altura, isso não parecia possível. Mas a Lotus não tinha muito o que perder e apostou. Com as nove voltas somando os dois períodos de Safety Car, o risco se transformou em pódio.

O contraste com a Mercedes não poderia ser maior. Na volta 22, a vantagem de Hamilton para Rosberg era de 12s. Cinco giros depois, Nico estava grudado na traseira do companheiro, que andava (sem exageros!) mais lento que as Marussia e reclamava veementemente via rádio.

Mas a situação ainda pioraria para Lewis: quando Rosberg o passou, a asa dianteira falhou e o alemão ganhou prioridade no pit. Porém, convenhamos: sabendo que o trabalho no bico de Nico seria longo, por que não dar prioridade para Hamilton parar e deixar o outro carro esperando dois ou três segundos? Na volta que deu a mais aguardando o atendimento ao companheiro, Hamilton perdeu sete (!) segundos com Raikkonen.

A resistência da Mercedes em parar Hamilton tinha a ver com a preocupação com o final da prova. Porém, naquele momento, Raikkonen (na volta 25), Hulkenberg (26) e Alonso (28, numa reação também lenta da Ferrari) já tinham parado. Se os pneus acabassem antes da prova, estariam todos no mesmo barco. O inglês tinha ritmo para ir ao pódio, mas o perdeu da mesma forma que Rosberg em Cingapura: puro conservadorismo na estratégia.

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