Julianne Cerasoli

Os segredos da tática vencedora de Rosberg – e por que pode ser diferente no Canadá

A vitória de Nico Rosberg em Mônaco só foi possível pela quilometragem adicional que a Mercedes teve no teste da Pirelli em Barcelona ou foi apenas uma prova de que “Mônaco é Mônaco”? A análise da estratégia da prova aponta para um uso bastante inteligente das forças do W04 e corrobora com a segunda hipótese.

Com o carro suficientemente rápido para fechar a primeira fila em um circuito travado, a Mercedes poderia fazer o que não teve a oportunidade nas outras três provas em que largou da pole: adotar um ritmo confortável para seus pneus.

Mas a jogada não termina aí: esse ritmo mais lento faria com que o pelotão ficasse unido o tempo todo, dificultando que os rivais adotassem táticas diferentes. Isso porque, nas simulações, a estratégia de duas paradas era 15s mais rápida, contando que fosse possível minimizar o tráfego. E o ritmo de cruzeiro adotado por Rosberg diminuiu os espaços – quem arriscasse parar antes, não teria pista livre para ganhar terreno.

Propositalmente ou não, a “união” do grid aumentou a possibilidade de acidentes e, consequentemente, de Safety Cars, o que facilitou a gestão de pneus. A bandeira vermelha deu mais uma ajuda, pois permitiu uma segunda troca de graça.

Além disso, por não estar tão bem posicionado no campeonato, Rosberg acabou tendo uma vida mais tranquila na ponta. O líder da tabela, Vettel, seu principal rival na corrida, tem um carro que também é duro com os pneus – se pressionasse muito o compatriota, correria riscos – e via os rivais mais próximos pelo título ficando para trás. Assim, o ritmo de cruzeiro veio a calhar para a Red Bull também.

Largando na frente, por que a Mercedes não fez duas paradas? Com 80% de chance de Safety Car, isso deixaria Nico e Lewis vulneráveis à possibilidade da Red Bull e, principalmente da Lotus, pararem só uma vez, pois nesse tipo de prova o ideal é estar na mesma estratégia dos rivais diretos para não ser pego de surpresa por uma paralisação, cujo timing é difícil de prever. Outra opção seria liberar Nico para duas paradas, enquanto Lewis prendia o pelotão, mas é difícil imaginar o campeão de 2008 nesse papel.

A tática do time só não foi perfeita pela lentidão ao reagir ao acidente de Massa. Estava claro que a pancada geraria um Safety Car e, no momento da batida, Nico e Lewis estavam no terceiro setor da pista. Vettel, logo atrás, aproveitou para parar, enquanto as Mercedes seguiram. Nesta volta, Hamilton foi cauteloso demais e perdeu oito segundos em relação a Nico, lembrando que, mesmo antes de alinharem atrás do SC, os pilotos têm de adotar um ritmo cerca de 40% mais lento (um delta é transmitido ao volante). Com o mesmo ritmo de Nico na inlap, Lewis possivelmente se manteria em segundo.

A tática da Mercedes foi um balde de água fria para a Lotus, que ficou sem sua principal arma. O time tentou arriscar, trazendo Raikkonen cedo para os boxes e buscando que os demais reagissem, mas o SC de Massa, logo em seguida, acabou precipitando as paradas.

Quem parecia um peixe fora d’água era Fernando Alonso. Sem ritmo desde o primeiro stint e sem a menor intenção de brigar por posições que lhe dariam 2, 3, 4 pontos a mais no campeonato, o espanhol teve uma tarde infeliz, que só piorou com a decisão de usar os supermacios, com os quais parecia mais desconfortável, no último stint.

Pela maneira como a prova se desenhou, não dá para cravar que a Mercedes de repente aprendeu a lidar com os pneus. Na verdade, observando o conjunto de fatores que jogou a favor de Rosberg, seria uma surpresa se, no Canadá, o sonho de Mônaco ganhasse um novo capítulo.

Sair da versão mobile