Julianne Cerasoli

Os três pilares do domínio da Mercedes

Mercedes GP F1  Launch

A Fórmula 1 já assistiu a diversos períodos de domínio. A Ferrari venceu cinco campeonatos seguidos entre 1999 e 2004; McLaren, na década de 1980, Williams, na seguinte, e Red Bull, na última, foram os melhores em quatro anos consecutivos. Mas o domínio que a Mercedes estabeleceu nos últimos três anos não fica devendo em nada aos demais. E tem grandes chances de se tornar o maior da história da Fórmula 1.

De certa forma, não é coincidência que os grandes domínios, daqueles que se estendem por várias temporadas, tenham se tornado mais frequentes à medida que a tecnologia passou a tomar conta do esporte. Afinal, o avanço de procedimentos e equipamentos vai tirando a ‘força’ do acaso e premiando as melhores estruturas. Nesse contexto, é bem provável que a equipe mais ‘perfeita’ da F-1 ainda esteja por vir, não importa quais sejam as regras técnicas.

Isso porque não é uma ideia revolucionária ou uma circunstância que explica o sucesso de um time que conseguiu perder apenas oito provas nos últimos três anos. E também é por isso que o nível de excelência da Mercedes é difícil de ser ameaçado.

Estrutura: Quando a Mercedes comprou a Brawn no final de 2009, apesar de ser um time campeão, era uma sombra em termos de estrutura do que havia sido nos tempos de Honda. Não, os japoneses não tiveram resultados expressivos, muito em função do tipo de administração, e não de equipamentos. Naquele momento, a continuidade de Brawn, agora com um belo orçamento, foi fundamental, assim como a contribuição de Michael Schumacher.

Carro e motor: Tecnicamente, ali foram criados os pilares do que vemos hoje e cujos frutos já começaram a ser colhidos mesmo em 2012 e 2013, quando a equipe veio crescendo paulatinamente.

Paralelamente a isso, a Mercedes acertou ao seguir desenvolvendo o KERS e conceitos do tipo mesmo depois que a Fórmula 1 deixou de dar tanta importância ao sistema, ainda durante sua temporada de estreia, em 2009. A ideia era aplicar o conhecimento construído pela fábrica de Brixworth nos carros de sua, mas é claro que a marca alemã também pressionou a FIA para levar esse tipo de tecnologia mais a sério na Fórmula 1.

Compreendendo um conceito-chave para a economia termal, que seria a grande fonte de performance da unidade de potência adotada a partir de 2014, e usufruindo como ninguém da proximidade das fábricas de motores e chassi, a Mercedes saiu na frente quando o regulamento mudou. Para isso, dois pontos foram chave: no motor, a separação do turbocompressor e da turbina, e o sistema de suspensão integrada.

O primeiro matou logo de cara uma série de charadas do novo regulamento: com a separação, o peso da unidade de potência (por conta do menor uso de tubos) caiu e sua distribuição melhorou, assim como a necessidade de refrigeração; sua eficiência aerodinâmica aumentou e, mais importante, isso gerou a diminuição do turbo lag, que em teoria seria totalmente eliminado pelo ERS, desviando-o para gerar potência. A suspensão, por sua vez, gerou um carro mais equilibrado e com menos desgaste de pneus.

Regulamento: Acertar logo a mão de cara nunca foi tão importante quanto no regulamento que nasceu em 2014 e o nível de domínio da Mercedes tem muito a ver com isso. Afinal, as regras primeiro impediam a atualização da unidade de potência, que se tornara central em termos de performance, e depois limitaram consideravelmente seu desenvolvimento. Já no último ano, em que as fornecedoras de motores estavam mais liberadas, houve um desvio rápido de recursos para a próxima temporada e isso foi fundamental para que o domínio da Mercedes fosse, em termos de números absolutos, o maior destes três anos.

Manutenção: Dentro de tantos aspectos técnicos, é importante ressaltar o fator humano do domínio da Mercedes. É claro que deixar os dois pilotos disputarem – e por algumas vezes até baterem – tem um ingrediente midiático, pois faz o domínio parecer menos ‘doloroso’. Imaginem três anos com uma equipe dominando e tendo um claro primeiro piloto? Mas, para a questão da motivação, não apenas dos pilotos, como de toda a equipe em si, era importante manter todos alerta e sempre procurando vencer. Nem que o inimigo vestisse as mesmas cores.

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