Julianne Cerasoli

Preparem os estômagos

Circuit de Catalunya, Barcelona, Spain. Sunday 11 May 2014. Niki Lauda, Non-Executive Chairman, Mercedes AMG, with Christian Horner, Team Principal, Red Bull Racing. World Copyright: Charles Coates/LAT Photographic. ref: Digital Image _N7T0626

É fácil olhar para a polêmica do formato de classificação da F-1 e pensar que os dirigentes estão perdidos e não sabem o que querem. Mas é também bastante ingênuo. A briga a respeito do treino está sendo um dos embates por poder mais sérios dos últimos 35 anos da história da categoria e tem tudo para ser apenas a ponta do iceberg de uma disputa que pode terminar apenas em 2020.

Não é por acaso de temos visto situações bastante incomuns nos últimos dias, com pilotos e equipes unidos. Também não são devaneios de Bernie Ecclestone as declarações desvalorizando a opinião dos donos do espetáculo e sugerindo que caiba à FIA fazer os regulamentos. E às equipes apenas cumpri-los.

O chefão poucas vezes se sentiu tão ameaçado. Em todos as suas três décadas de reinado, talvez o grande susto tenha sido a ameaça de criação de uma liga paralela em 2009, também em um dos raros momentos de união entre as equipes, em um clima de instabilidade vindo da saída das montadoras.

Desta vez, a união das equipes significa diretamente a união das montadoras. E Ecclestone, que subiu ao poder no início dos anos 1980 justamente comandando uma ‘rebelião’ do tipo – inclusive, com o apoio dos pilotos, que chegaram a fazer greve, efetivamente, por ele – sabe o tamanho da encrenca que pode enfrentar.

Esse aumento do poder das equipes é resultado direto de algumas ideias que nasceram da crise de 2009, especialmente o Grupo de Estratégia. Com ele, os grandes times ganharam maior poder de interferência nas regras, atingindo um grau de igualdade com o poder da própria FIA totalmente impensado nos tempos de Max Mosley. Por isso, desde o ano passado, Ecclestone se alinhou ao fraco presidente Todt para minar o poderio que as equipes – leia-se, montadoras – tinham adquirido.

Nesse contexto, a alteração unilateral da classificação a um mês do início do campeonato foi uma tentativa de rachar os times de vez e preparar o terreno para a imposição das polêmicas alterações em 2017. Mais do que isso, criar um cenário de desunião , atrelado à ideia que tem sido vendida de que a F-1 está perdida – mesmo que os lucros subam ano a ano – para que, ao final dos atuais contratos, o poder volte à FIA e à FOM. E esse prazo é 2020.

Será que Ecclestone viverá para sentir o gosto de seu próprio veneno e levar um golpe das equipes? Ou será que a atual união das montadoras não vai durar? Preparem os estômagos.

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