Julianne Cerasoli

Red Bull e o jogo de equipe politicamente correto

E eis que Max Mosley reapareceu das cinzas semana passada para questionar um possível título de Fernando Alonso por menos de 7 pontos. O advogado que se tornou o rei das decisões mais políticas que jurídicas enquanto esteve no comando da FIA não perdeu a chance de ganhar algumas manchetes.

Por que será que ele, como então presidente da FIA, nada fez quando houve claras ordens na McLaren entre Montoya e Raikkonen e hamilton e Kovalainen, na Renault entre Fisichella e Alonso e na Ferrari entre Raikkonen e Massa, além de disputas mais abaixo no pelotão? Não foi ele quem abriu o procedente que permitiu que a Scuderia escapasse de um julgamento mais duro?

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Deve ser difícil gerir esportes em geral. Por um lado, eles são o entretenimento de milhões de pessoas. Por outro, são a profissão de outras tantas. E, numa 3ª via, como explicitamente no caso da Red Bull, são ferramenta de marketing.

Todos os grandes campeões brincaram com os limites do aceitável para ganhar. O grande ídolo da categoria já avisou: “Vencer é o mais importante. Todo o resto é consequência”. Em outras palavras, os fins justificam os meios para quem dedicou sua vida inteira para vencer.

Também é verdade que ninguém conquista um campeonato de F1 somente por ter o apoio da equipe ou se beneficiar de manobras questionáveis. O campeão é aquele que melhor lidou com 9 meses de disputa por desertos, tempestades tropicais, calor, corridas táticas ou confusas, pressões internas e externas. E não é um episódio isolado que vai definir isso. Que o digam os mais de 150 pontos que a Red Bull perdeu por falhas mecânicas e de seus pilotos nesta temporada.

Isso é uma regra geral, mas no caso específico de Alonso, se ele for campeão com menos de 7 pontos, há duas maneiras de se ver: ou a Ferrari acertou em apoiá-lo num momento chave, evitando que tivesse perdas desnecessárias, ou decidiu o campeonato de maneira obscura. Da mesma forma, se a diferença for maior que 7 pontos: prova da competência do asturiano ou de que todo o desgaste da Alemanha não era necessário?

Essa será – caso o espanhol ganhe o título, algo ainda difícil tendo em vista a disparidade técnica em relação à Red Bull – uma daquelas discussões intermináveis em que não haverá certo ou errado, mas visões distintas.

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“Não somos como a Ferrari”

Aí aparece a Red Bull com o discurso de que atuará de acordo com o bem do esporte. Se assim fosse, seu piloto que está à frente na classificação não estaria tão infeliz com o tratamento que tem na equipe.

É dificil acreditar que este não seja mais um discurso marqueteiro, algo que comandou toda a trajetória da empresa de energéticos na F1 e fora dela. É igualmente complicado crer que não se trate de uma manobra para dar chances a Sebastian Vettel, piloto em quem a equipe colocou muito dinheiro.

A Red Bull inovou no quesito usar o esporte para vender

E, tendo isso em vista, é uma postura que vem bem a calhar para quem sempre se propagandeou como uma empresa que faz o diferente, por isso o apoio a esportes nada convencionais. Seria a prova de que eles estão na F1 para vender latinhas. Para se ter uma ideia, a Red Bull tem apenas uma fábrica, na Áustria, e praticamente um produto (existem as versões sem acúçar e a Red Bull Cola em alguns países). Não se investe em expansão de fábricas, mas sim com marketing, com que gastam 35% da receita, um número altíssimo, sendo apenas 10% desse total empregado em mídia convencional, como propagandas. Eles apostam em marketing espontâneo, ou seja, resultado dos eventos que patrocinam.

Dentro disso, a estratégia de adotar o discurso de não aceitar as ordens de equipe é inteligente e parece funcionar com quem apenas assiste as corridas aos domingos e lê um ou outro site de notícia. As pessoas geralmente dão crédito a discursos politicamente corretos e essa é a melhor maneira do ponto de vista da imagem da empresa de fazer jogo de equipe: agindo subliminarmente e jurando que não o fez. E, caso Vettel abra para Webber em Abu Dhabi, todos vão destacar a opção do piloto, um gesto de grandeza e maturidade pelo bem da equipe. Alguém aposta o contrário?

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